hisham hm

How you look, how you sound, what you say: Alexandre Garcia e o preconceito linguístico

Circulou hoje na internet o vídeo de um comentário de Alexandre Garcia criticando o uso no ensino de um livro que trata da noção de preconceito linguístico. Foi um dos links mais divulgados no Twitter ao longo do dia.

Ao tentar entender o porquê de tamanha comoção na internet a favor do vídeo, lembrei de uma frase do hilário Eddie Izzard que minha namorada gosta de repetir: “o que conta pra maioria das pessoas é 70% a sua aparência, 20% como você soa, e 10% o que você diz” (no original: “it’s 70% how you look, 20% how you sound, 10% what you say”).

Toda vez que vídeos como esse circulam eu tenho a sensação de que as pessoas se identificam com o tom do discurso: todo mundo tem uma indignação com o “estado atual das coisas” (mesmo que isso seja um conceito um tanto vago) e gostaria de um Brasil melhor.

Quando aparece alguém que soa que está fazendo um discurso indignado em prol de um Brasil melhor, sempre ganha de cara bastante simpatia. Quando a sua aparência é respeitável — afinal, é um comentarista na Rede Globo! — imediatamente ganha algum crédito.

Resta o que ele diz. Dado que o que ele diz trata de um debate sobre variações linguísticas que ele apenas vagamente distorceu e de que a maioria das pessoas não está ciente, os outros dois fatores dominam e o vídeo é um hit certo.

A argumentação de Garcia apresenta vários pontos aparentemente válidos, mas distorce totalmente a questão da política pública em relação a variações linguísticas em vigor desde o governo FHC e mantida pelo PT (portanto não é uma questão partidária). É natural que quem não está a par do assunto se assuste com a ideia de “um livro que defenda falar errado”.

Porém, o que se defende não é isso. O que se defende é reconhecer que é fato que não se fala como se escreve, e que diferentes grupos falam de maneiras diferentes, em sotaque e em gramática. E sim, tanto na fala como na escrita o “aceitável” varia conforme a situação. Aqui no blog escrevo de forma mais relaxada do que se estivesse escrevendo um texto acadêmico. Dando uma palestra, falo de forma mais monitorada do que falando com os amigos.

O ponto central é que nenhuma dessas falas corresponde à escrita. Todo mundo fala de um jeito e escreve de outro. Até o Alexandre Garcia, que no próprio vídeo diz “e é óbvio que a raiz de tudo TÁ na capacidade de se comunicar” (aos 0:51). Por esse motivo, não procede o argumento dele que diz “Renata, quando eu TAVA no primeiro ano do grupo escolar e a gente falava errado a professora nos corrigia porque ela estava nos preparando pra vencer na vida”… bom, sr. Garcia, segundo essa lógica de que só a norma culta é certa, você continua “falando errado”, mas pelo visto conseguiu vencer na vida mesmo assim, não?

O que pessoas como ele querem é esconder o fato de que alguns erros são aceitos em um determinado contexto e classe social (até um comentarista da Rede Globo pode dizer “tá” e “tava”) e outros não são (dizer “as mina” é coisa de gente “sem educação”). Isso, resumindo em uma frase, é o preconceito linguístico. [Na prática, isso varia conforme o lugar também: no Rio Grande do Sul as classes média e alta “comem” os plurais ao falar muito mais do que no Rio de Janeiro, por exemplo, onde isso tem uma percepção mais forte de fala de classe baixa.]

O que o MEC defende é que não há lógica em relevar que o aluno de classe média fale “a gente tava” e oprimir o aluno de classe baixa que fale “as mina” — o que se deve é ensinar a ambos que se escreve “a gente estava” (ou “nós estávamos”) e “as meninas”, e que conforme o lugar onde eles estiverem é mais aceitável falar de um jeito ou de outro.

Alexandre Garcia fala em “educação rígida, tradicional e competitiva”. Pode até soar bonito em um discurso indignado que se coloca contra uma suposta “chancela para a ignorância”. Mas nós queremos “educação rígida” em vez de ensinar adaptabilidade num mundo tão dinâmico como o de hoje, “educação tradicional” em vez de inovadora, e “educação competitiva” em vez de colaborativa? Eu não quero.

Ainda assim, é triste ver que o “how you look, how you sound, what you say” se aplica a essa história em outro nível: se a sua aparência não for respeitável (como a do comentarista da Globo) e a sua retórica não for eloquente (como a dele), os seus desvios da norma culta não vão “passar batido” como os do Alexandre Garcia, e ainda vai ter gente na TV discursando para que o seu modo de falar seja combatido.

Para saber mais sobre a polêmica em torno do livro “Por uma vida melhor” e as variações linguísticas, recomendo este texto.


  1. hisham

    Wednesday, May 18, 2011 - 20:32:55

    Comentário do Alan via Twitter:
    “@hisham_hm Acho que o problema não é o preconceito, mas o desvio de foco no ensino. Afinal qual o papel da escola ao ensinar português? Alguém vai para a escola aprender sotaques e gírias? O que será cobrado do cidadão formado? O que você precisa aprender?”

    São excelentes perguntas. Qual o papel da escola ao ensinar português? Como disse o Bagno no texto do link ao fim do post, “Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem”. Então, sim, cabe à escola ensinar os alunos a ler e a escrever segundo a norma culta da escrita.

    Baseado nisso, a gente pode pensar no que tu falou: “desvio de foco no ensino” por outra ótica: o ensino de português como as pessoas da nossa geração aprenderam na escola é apropriado? Fazer os alunos decorarem trocentas regras de análise sintática, morfológica, decorar os nomes como “adjunto adnominal” e afins… isso tudo não é um desvio de foco em relação a ensinar os alunos a ler, escrever, falar e ouvir a língua?

    Na minha escola de classe média, nunca repreenderam o meu jeito de falar, mesmo com os meus “os livro” e “a gente tava”. Aprendi a ler e escrever decentemente porque sempre gostei de ler e escrever por fora da aula. Muitos colegas meus saíram do segundo grau escrevendo muito mal, mesmo tendo decorado todas as regras gramaticais pra passar de ano.

    Por outro lado, só chegando no Rio de Janeiro descobri que lá eles botam os plurais nos lugares certos ao falar. Nunca me ensinaram na aula quais das coisas que eu sempre falei normalmente são na verdade regionalismos, que quando tu vai pra outro estado não são compreendidos. Nunca me apontaram na aula que o português que eu falo é tão diferente do escrito quanto o português de pessoas que falam bem diferente de mim (p.ex., dizer “oitcho” para “8” é tão longe da escrita como dizer “tomatchi” para “tomate”, como fazemos — ainda assim tem pessoas que acham que “falam melhor” ou “com menos sotaque” que outras). No quesito de formar cidadãos, acho que gastar algum tempo do ensino desfazendo esses mitos teria um papel benéfico na quebra de alguns preconceitos, e muito mais útil do que ficar decorando que a conjugação do imperativo negativo é diferente do imperativo positivo (lembra disso?), distinção que nunca se faz na vida real.

    A gente odiava as aulas de português porque elas eram realmente ruins (programaticamente — por melhor que fossem os professores, que tentavam de tudo para dar uma cara interessante ao conteúdo). Está mais do que na hora de repensar isso, pra ver se a gente consegue começar a formar pessoas que saem da escola sabendo realmente escrever mais do que uma redação-clichê “introdução-desenvolvimento-conclusão” para passar no vestibular.

  2. Alan

    Wednesday, May 18, 2011 - 21:43:26

    Legal essa discussão.

    É muito importante lembrar que a língua é um instrumento de comunicação. E é pensando nisso que os lingüistas defendem a liberdade da língua, e é por isso que a língua culta é regida pela língua falada e não o contrário.

    Afinal, primeiro falamos e depois definimos regras. Não fosse assim, palavras alteradas pelo uso popular não entrariam na norma culta.

    Entretanto, exatamente como disseste “Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem” e as regras da norma culta são justamente as coisas que eles não sabem e a “conjugação do imperativo negativo” está para o português assim como as equações de segundo grau estão para a matemática. Pois, o zezinho deve se perguntar porque ele aprende todas essas contas se vai trabalhar na quitanda fazendo apenas as quatro operações básicas e regra de três até o fim da vida, isso se um dia ele chegar a caixa…

    Sim é ruim aprender um monte de coisas que talvez não usemos mais, é ruim aprender com um professor que está ganhando pouco e sem condições de trabalho. Mas o pior é ouvir o que minha sogra disse ao se aposentar como pedagoga. Jogou a toalha, hoje não se pode reprovar um aluno. Se ele não aprendeu a escrever passa de série, a professora do outro ano tem que segurar a bomba e todos os alunos são prejudicados na série seguinte. Não se pode reprovar, pois o MEC tem como métrica a aprovação. Se era ruim alunos que estudavam para passar, imagina se nem para isso precisam estudar?

    O MEC está formando o futuro do país. E com conhecimento de quem tem mãe e sogra pedagogas, dele vem a “chancela para a ignorância”. Competição é saudável sim, rigidez é necessária sim. Disciplina se aprende com rigidez e a recompensa do esforço se aprende competindo. A inovação vem da superação de desafios e a colaboração de objetivos em comum.

    E da minha experiência como pai posso te dizer que não é permitindo tudo que vamos formar jovens conscientes e responsáveis.

  3. Alan

    Wednesday, May 18, 2011 - 21:59:29

    ps: permitir editar os comentários seria uma boa opção de funcionalidade, faltaram-me algumas vírgulas…

  4. gbedin

    Thursday, May 19, 2011 - 18:53:26

    Lembrei de mais um fato, todo concurso público exige o uso da lingua portuquesa formal e culta.

  5. hisham

    Thursday, May 19, 2011 - 19:57:23

    Pessoal, só pra esclarecer mais uma vez: o discurso do Alexandre Garcia distorce totalmente a questão. Pra dizer com todas as letras:

    *** Ninguém defende que não se ensine a norma culta. Ninguém defende que se escreva como se fala. ***

    Por favor, leiam esse texto que discute a fundo a questão: http://www.cartacapital.com.br/politica/polemica-ou-ignorancia

    Eu deveria ter citado trechos dele no meu post e ter sido mais claro quanto a isso.

    Indo aos pontos específicos:

    Alan: não, a conjugação do imperativo negativo não está para o português como a equação de segundo grau está para a matemática. Nem escrevendo em português para um paper acadêmico, a distinção do imperativo negativo é relevante. Peguei justamente um exemplo de regra arcaica que se ensina mas que ninguém usa nem na escrita formal.

    Nem todos usam equações de segundo grau após sair da escola, mas todos que seguem pelas exatas usam. Já a parte de decorar nomes de construções e arcaísmos do ensino de português só interessam a quem vai estudar Letras. Ninguém nem de humanas usa isso — cursos como jornalismo têm 7 cadeiras de português, e não se fica aplicando regrinhas: elas são focadas em produção textual, ou seja, aprender a usar a língua de verdade. O estudo de gramática que tivemos no colégio era como aprender a identificar equações pela sua forma mas sem saber quais os seus usos, não diferente de como o Feynman descrevia o ensino de física.

    No segundo ponto, concordo contigo. Também sou contra a progressão continuada e dado o estado caótico da educação pública no Brasil, acaba sendo sim uma forma de mascarar números. Por outro lado, acho muito interessante o sistema de “passar com dependência”.

    Se o aluno roda em apenas uma disciplina, ele passa de ano e tem aulas de reforço dessa disciplina à tarde no início do ano seguinte, em forma intensiva. Assim, quando chega na metade do ano, ele já conseguiu alcançar os colegas no assunto que é a dificuldade pontual dele e não perde um ano da vida revendo durante um ano inteiro outros 9 assuntos que ele já havia aprendido a contento, evitando assim a perda do tempo, o impacto social e o aumento do desinteresse na escola causados pela repetência.

    Muitas escolas particulares hoje implementam esse esquema, como o Sinodal de São Leopoldo, que tem o melhor resultado do ENEM do sul do Brasil. Para isso, claro, é preciso um sistema pedagógico muito bem construído, com um bom intensivo de dependência bem projetado, etc, etc.

    Ou seja, é lógico que não dá pra simplesmente dizer “agora tudo passa”, mas também manter o ensino no esquema “tradicional e rígido” do “se passou, passou; se rodou, rodou” é provadamente pior — os resultados positivos das escolas que implementam inovações como essa estão aí para mostrar.

    Ninguém está falando em “permitir tudo”, ninguém está falando em “falta de disciplina”, ninguém está falando em “ensinar a escrever errado”. O problema que estou querendo apontar aqui é justamente que esses argumentos alarmistas são usados quando não é disso que se está falando.

    Assim como o ensino de física mudou desde quando estávamos no colégio até hoje (a mãe da minha namorada é professora de física e acompanhou essa mudança: todos os livros foram trocados e o foco agora é mais no _entendimento da física_ do que decorar fórmulas com era no nosso tempo), o ensino do português vem evoluindo. Infelizmente tem gente como o Garcia que esbraveja porque a sua maneira de falar que é e sempre foi tolerada com os seus erros, agora é colocada em pé de igualdade com a maneira de falar de pessoas que eles consideram que “falam pior”.

    Eu falo e sempre falei “os peixe” e isso nunca me impediu de escrever “os peixes”. O livro que está sendo atacado simplesmente diz isso: as pessoas falam de um jeito e escrevem de outro.

    Se vocês preferem que as coisas continuem como eram, que os alunos que falam os “erros de classe média” sejam perdoados e os alunos que falam os “erros de classe baixa” levem reprimenda, então vamos discordar. Voltando ao “Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem”: sim, deve-se ensinar ao aluno que fala com gírias e concordâncias que não são aceitas em ambientes mais formais como se deve falar nessas situações também.

    Mas não se deve tratar um guri da favela como um “ignorante” que “não sabe falar direito” quando o garoto de classe média (eu) que fala “a gente tava buscando os livro” é tratado como uma pessoa perfeitamente capaz de aprender a escrever “nós estávamos buscando os livros”, e ninguém nunca me obrigava a falar assim na escola. [Na real mesmo, eu falo “a genti tava buscandu us livru”]

    Dizer que o guri da favela “fala errado” e eu “falo certo” é uma farsa preconceituosa que mantém o abismo social e que sempre acaba por colocar mais barreiras às crianças de classe mais baixa, que são justamente quem mais precisa da escola.

    “Recompensa do esforço se aprende competindo.” Discordo totalmente. Competindo tu pode ganhar a recompensa se o outro é pior que tu. Se fosse pela “competição” com os meus colegas na escola minha motivação seria zero porque eu era o melhor da classe. Um dia um professor comparou minhas notas com a de um colega e eu fiquei genuinamente ofendido: ele usou a expressão “tu e o Fulano estão no páreo”. Naquele momento me senti comparado com um cavalo. Minha motivação era aprender, construir, e não ser melhor do que os outros. Eu vejo a recompensa do esforço do trabalho que eu boto no software livre e não estou competindo com ninguém.

    A inovação não vem da superação de desafios, vem de ideias. Passar em primeiro num concurso é superar um desafio e pra isso tu não precisa inovar nada. Uma obra de arte pode ser inovadora e ela não supera desafio nenhum, ela é uma ideia (a não ser que o “desafio” seja justamente “inovar”, mas aí seria uma definição circular).

  6. hisham

    Thursday, May 19, 2011 - 19:58:38

    Ah, sobre permitir edição dos comentários, depois procuro essa opção na configuração do FlatPress :)

  7. hisham

    Thursday, May 26, 2011 - 16:21:19

    Comentários da Priscilla via Twitter:
    “@hisham_hm O problema é que estão chamando uma deficiência educacional (que vem de algumas décadas) de evolução da língua.”

    Não acho que seja por aí. Isso que tu está chamando de deficiência educacional, pra começar, não vem de algumas décadas. Ou tu acha que há algumas décadas atrás as pessoas falavam exatamente como se escreve? Nunca. Nem nós, com formação escolar “completa”, falamos como se escreve, nem as pessoas de classe social mais baixa. Se a distinção entre a fala é algo, ela está mais para “evolução da língua” do que “deficiência educacional” mesmo: é só lembrar que o português nasceu do latim vulgar. É claro que não defendo que todas as distinções de fala e escrita sejam adotadas como novas regras de escrita — a estabilidade da norma formal escrita serve para nos dar um código comum para transmissão de conhecimento; é um protocolo.

    Mas sim, todos falam diferente de como se escreve e isso não é uma deficiência educacional. Aí tu poderia talvez dizer “mas as pessoas com menos formação falam _mais_ diferente do que se escreve, elas erram mais”. Para isso eu respondo pegando um exemplo que eu já usei: eu falo “a genti tava buscandu us livru”; pra mim isso é _bastante_ diferente da norma formal escrita “nós estávamos buscando os livros”. Aí tu diz, “ah, mas falar O com som de U é sotaque, não é erro”. Sim, mas o pessoal do Nordeste falar “buscanu” em vez de “buscandu” também é sotaque. As pessoas “comem o D” falando, mas escrevem com o D. O ponto é que em determinados contextos sociais, alguns “erros” (diferenças entre a forma escrita e a falada) são aceitos, tolerados ou mesmo não percebidos, e outros não.

    Curiosamente, são sempre os “erros” dos ricos que são tolerados e os dos pobres que são apontados como falta de educação. Reiterando o que eu disse em outros comentários:

    “Não há lógica em relevar que o aluno de classe média fale “a gente tava” e oprimir o aluno de classe baixa que fale “as mina” dizendo que “não pode falar assim” — o que se deve é ensinar a ambos que se escreve “a gente estava” (ou “nós estávamos”) e “as meninas”, e que conforme o lugar onde eles estiverem é mais aceitável falar de um jeito ou de outro.”

    Ambos são desvios da norma formal escrita. Se eu estiver apresentando um paper vou cuidar para usar mais os plurais corretamente, assim como o garoto pobre vai cuidar para não usar “as mina” num ambiente de trabalho formal.

    “Mas não se deve tratar um guri da favela como um “ignorante” que “não sabe falar direito” quando o garoto de classe média (eu) que fala “a gente tava buscando os livro” é tratado como uma pessoa perfeitamente capaz de aprender a escrever “nós estávamos buscando os livros”, e ninguém nunca me obrigava a falar assim na escola. [Na real mesmo, eu falo “a genti tava buscandu us livru”]

    Dizer que o guri da favela “fala errado” e eu “falo certo” é uma farsa preconceituosa que mantém o abismo social e que sempre acaba por colocar mais barreiras às crianças de classe mais baixa, que são justamente quem mais precisa da escola.”

    Concluindo então com o teu comentário:
    “@hisham_hm Mesmo pq não sei se crianças do ensino fundamental teriam maturidade para lidar com essa distinção “falar pode, mas não escrever” ”

    Aí estamos chegando no cerne da questão. Quando tu estava no ensino fundamental, a professora te dava reprimenda toda vez que tu _falava_ “tá” em vez de “está”? Certamente não. É aceito para a nossa classe social falar assim. Mas com certeza na hora de aprender a escrever ela dizia “não, para escrever tem que usar ‘está’”.

    Então sim, existe a maturidade para lidar com essa distinção a partir do momento que tu considera a criança capaz disso.

    Aqui em Porto Alegre e na região metropolitana, a gente fala “tu viu” em vez do gramaticalmente correto “tu viste”. Isso é aceito na fala informal, e mesmo na escrita mais informal (eu uso essa forma escrevendo aqui, no Twitter, etc.). Na escola, na hora de aprender a conjugar os verbos, nos ensinam que “na hora de escrever, tem que ser ‘tu viste’”, sim. Ninguém ficava policiando a maneira que falávamos pra nos forçar a falar conjugando os verbos corretamente, porque naquele contexto (escola de classe média no RS) essa construção era aceita. Agora, certamente, se eu falasse “poblema” seria corrigido pela professora. O “s” em “os livroS” é menos crítico do que o “r” de “pRoblema”? São dois pesos e duas medidas, e a distinção é social, e não lógica.

    Eu não acredito que a criança que fala “a gente tava” tem menos dificuldade para aprender o “nós estávamos” do que a criança que fala “as mina” tem de aprender “as meninas”. Temos que ter cuidado pra não fazer uma distinção artificial dos dois casos, pois seria calcada em quê? Se tratarmos a capacidade de aprender das crianças como diferentes em função de classe social, isso seria preconceito.

    Minha mãe veio de classe baixa e lembro que, embora falasse um português normal para a nossa classe média, ela ainda falava “poblema” (mas sempre escreveu “problema”). Insisti com ela até que ela perdeu o costume e começou a falar “problema”, porque eu sabia que falar “poblema” era mal-visto. Curiosamente, os outros desvios de fala que são mais típicos na classe média gaúcha (comer os plurais, conjugar o “tu” errado) nunca me incomodaram.

    Mais uma vez: ninguém defende que não se ensine a norma formal. Ninguém defende que se escreva como se fala. A questão é aceitar que a diferença entre a fala e a escrita existe e que, à perspectiva da norma escrita, todos falam “errado”. Então vamos parar de tratar as pessoas diferente em função de como elas falam e começar a ensinar que existem diferentes falas e que a escrita tem suas próprias regras.

    Ouvir “nós vai” pode doer no teu ouvido (dói no meu!), mas quem “conjuga certo” para os nossos padrões não fala “nós vamu”? Talvez isso doa no ouvido de alguém de Portugal. Mas eles também não pódem falar muito, pois falam “nóx vamx”. :)

  8. Alan

    Wednesday, June 1, 2011 - 15:42:58

    Vou colocar aqui um pedaço de uma entrevista do Bechara para a Veja.

    Não sou partidário da Veja, mas foi onde achei ele falando sobre o assunto.

    O pernambucano Evanildo Bechara é um dos mais respeitados gramáticos da língua portuguesa. Doutor em letras e autor de duas dezenas de livros, entre os quais a consagrada “Moderna Gramática Portuguesa”, Bechara, de 83 anos, passou décadas lecionando português, lingüística e filologia românica em universidades do Rio de Janeiro, da Alemanha e de Portugal. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele é, por profissão, um propagador do bom uso do português. A fala mansa de Bechara contrasta com o tom incisivo de suas críticas a certa corrente de professores entusiastas da tese de que é “preconceito lingüístico” corrigir os alunos. Diz Bechara: “Alguns de meus colegas subvertem a lógica em nome de uma doutrina que só serve para tirar de crianças e jovens a chance de ascenderem socialmente”.

    VEJA - A defesa que o livro Por ama Vida Melhor, distribuído a 500.000 estudantes ao custo de milhões de reais para o bolso dos brasileiros, faz do uso errado da língua deveria ter provocado uma revolta maior, não?
    BECHARA - A defesa que foi feita desse livro decorre de um equívoco. Estão confundindo um problema de ordem pedagógica, que diz respeito às escolas, com uma velha discussão teórica da sociolinguística, que reconhece e valoriza o linguajar popular. Esse é um terreno pantanoso. Ninguém de bom-senso discorda de que a expressão popular tem validade como forma de comunicação. Só que é preciso que se reconheça que a língua culta reúne infinitamente mais qualidades e valores. Ela é a única que consegue produzir e traduzir os pensamentos que circulam no mundo da filosofia, da literatura, das artes e das ciências. A linguagem popular a que alguns colegas meus se referem, por sua vez, não apresenta vocabulário nem tampouco estatura gramatical que permitam desenvolver idéias de maior complexidade - tão caras a uma sociedade que almeja evoluir. Por isso, é óbvio que não cabe às escolas ensiná-la.

    VEJA - Alguns de seus colegas consideram a norma culta um instrumento de dominação das elites…
    BECHARA - Isso não passa de ortodoxia política. Eles subvertem a lógica em nome de uma doutrina. É semelhante ao que uma corrente de comunistas russos apregoava quando Josef Stalin (1879-1953) chegou ao poder. Os comunistas queriam estabelecer algo como “a nova língua do partido”, um absurdo que enterraria a norma culta. O próprio Stalin condenou essa aberração e manteve a norma erudita, o imenso manancial dos grandes escritores russos, como a língua oficial da União Soviética. Agora, um grupo de brasileiros tenta repetir essa mesma lógica equivocada, empenhando-se em desvalorizar o bom português.

    VEJA - Qual o papel da norma culta de uma língua?
    BECHARA - Não resta dúvida de que ela é um componente determinante da ascensão social. Qualquer pessoa dotada de mínima inteligência sabe que precisa aprender a norma culta para almejar melhores oportunidades. Privar cidadãos disso é o mesmo que lhes negar a chance de progredir na vida. Para mim. o lingüista italiano Raffaele Simone, ainda em atividade, foi quem situou esse debate de forma mais lúcida. Ele critica os populistas que, ao fazer apologia da expressão popular, contribuem para perpetuar a segregação de classes pela língua. Pois justamente é o ensino da norma culta, segundo Raffaele, que ajuda na libertação dos menos favorecidos. Suas palavras se encaixam perfeitamente no debate atual.

  9. Alan

    Wednesday, June 1, 2011 - 15:54:40

    Isso está indo para onde? Escolas públicas.

    Quem está nas escolas públicas? Os mais pobres.

    Se o professor “respeitar” e não corrigir o aluno que fala diferente o que vai acontecer? Ele vai continuar falando do mesmo jeito!

    Qual o impacto disso? Os pobres vão, cada vez mais, se distanciar dos mais ricos.

    Vamos transformar ignorância em cultura e começar a chamar os mais pobres de neo-índios!

    Não se iludam, isso não é inclusão!

  10. Alan

    Wednesday, June 1, 2011 - 15:58:46

    Podemos implantar também a novilíngua [ http://pt.wikipedia.org/wiki/Novil%C3%ADngua] nas escolas públicas! O que acham?

  11. Alan

    Wednesday, June 1, 2011 - 15:59:38

    Podemos implantar também a novilíngua [ http://pt.wikipedia.org/wiki/Novil%C3%ADngua ] nas escolas públicas! O que acham?

    ps: No outro post ficou um “]” muito perto do link =/

  12. hisham

    Wednesday, June 1, 2011 - 20:33:05

    Só que é preciso que se reconheça que a língua culta reúne infinitamente mais qualidades e valores. Ela é a única que consegue produzir e traduzir os pensamentos que circulam no mundo da filosofia, da literatura, das artes e das ciências.

    Isso não é verdade. É ponto pacífico em linguística que todas as línguas e maneiras de falar são igualmente capazes de representar ideias. A norma culta é necessária para ter acesso ao material nela produzido, claro, mas não é a única capaz de produzir pensamentos que circulam no mundo da filosofia, literatura, arte e ciência. Aqui tem um contra-exemplo interessante onde o autor transcreve Descartes para a linguagem coloquial das ruas, o que demonstra que o Bechara está errado.

    Por isso, é óbvio que não cabe às escolas ensiná-la.

    Ninguém está falando em ensinar linguagem popular na escola. Mais uma vez: “Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem”. Então, sim, cabe à escola ensinar os alunos a ler e a escrever segundo a norma culta da escrita.

    Ninguém está falando em pegar uma criança que fale “os livros” e ensinar ela a falar “os livro”. Por que esse cara tá falando de que não se deve ensinar a linguagem popular na escola? Alguém falou disso? A única coisa que o tal atacado livro faz é comentar que existe uma linguagem popular que se fala em determinados contextos. Será que a escola deveria fingir que isso não existe?

    linguagem popular a que alguns colegas meus se referem, por sua vez, não apresenta vocabulário nem tampouco estatura gramatical que permitam desenvolver idéias de maior complexidade

    Genial. Então os pobres são incapazes de ter ideias de maior complexidade por falta de vocabulário e estruturas gramaticais? Por essa lógica, se eu não uso o pretérito mais-que-perfeito então não tenho como falar de algo que já era passado no passado (o formal “quando cheguei, ele já morrera” vs. o popular “quando cheguei, ele já tinha morrido.”). Essa posição é o cúmulo do elitismo.

    Entendo que enquanto gramático (em outras palavras, um especialista nas regras da norma culta) ele esteja defendendo o peixe dele, mas ao defender a gramática formal ele está falando absurdos no campo de linguística. A hipótese de Sapir-Whorf serviu para acender discussões sobre relativismo em linguística mas a “versão forte” da hipótese nunca foi aceita como verdade (mesmo Sapir e Whorf questionavam essa visão).

    Agora, um grupo de brasileiros tenta repetir essa mesma lógica equivocada, empenhando-se em desvalorizar o bom português.

    Mentira. Ninguém quer desvalorizar o português da norma formal. Mais uma vez:

    *** Ninguém defende que não se ensine a norma culta. Ninguém defende que se escreva como se fala. ***

    Essa segunda pergunta é uma clássica aplicação da falácia do espantalho. Ele faz uma caracterização da posição que não é o que está sendo discutido e ataca ela, em vez de contra-argumentar os pontos apresentados. Ninguém está dizendo que “a norma culta é instrumento de dominação das elites” — só o que se está falando (mais uma vez!) é que algumas maneiras de falar são mais aceitas que outras e que ambas diferem da norma formal de escrita.

    Se o professor “respeitar” e não corrigir o aluno que fala diferente o que vai acontecer?

    Vamos lá, então, responda as seguintes perguntas com “sim” ou “não”:

    * O professor deve corrigir a maneira como os alunos falam?

    * Se o aluno falar “as mina” em vez de “as meninas”, ele deve ser corrigido?

    * Se o aluno falar “a gente tava” em vez de “a gente estava”, ele deve ser corrigido?

    * Se o aluno falar “a gente estava” em vez de “nós estávamos”, ele deve ser corrigido?

    * Se o aluno falar “os livro” em vez de “os livros”, ele deve ser corrigido?

    * Se o aluno falar “fazeno” em vez de “fazendo”, ele deve ser corrigido?

    * Se o aluno falar “livru” em vez de “livro”, ele deve ser corrigido?

    * Se o aluno falar “tu vai” em vez de “tu vais”, ele deve ser corrigido?

    * Se o aluno falar “essa parte é pra mim fazer” em vez de “essa parte é para eu fazer”, ele deve ser corrigido?

    * Se o aluno falar “me diz uma coisa” em vez de “diga-me uma coisa”, ele deve ser corrigido?

    * Se o aluno falar “mó confusão” em vez de “maior confusão”, ele deve ser corrigido?

    Note que todas as perguntas são em relação à fala, não à escrita. Afinal, é da fala que o livro “Por uma vida melhor” está falando na frase tão polêmica. Nenhuma das perguntas acima se refere à norma escrita. Acho que vendo em quais a resposta será “sim” e em quais “não” poderemos entender melhor quais os critérios que estão sendo defendidos.

    Ele vai continuar falando do mesmo jeito!

    O objetivo é fazer com que todo mundo fale da mesma maneira? Que maneira é essa? A maneira que uns já chegam na escola falando? Lembre-se que ela diverge tanto da norma escrita quanto qualquer outra — ninguém fala como se escreve. Isso é aumentar o abismo social.

    Podemos implantar também a novilíngua [ http://pt.wikipedia.org/wiki/Novil%C3%ADngua ] nas escolas públicas! O que acham?

    Bom, quem está falando em “corrigir” quem “fala diferente” não sou eu.

    Falando nisso, há literalmente anos eu penso em escrever sobre Orwell e as maneiras como ele é citado.

  13. Alan

    Monday, June 6, 2011 - 14:23:19

    Sobre outros livros do MEC

    Nos ‘livro’ do MEC, 10 - 7 = 4. Faz sentido.

    Demétrio Weber, O Globo

    O Ministério da Educação pediu à Controladoria Geral da União (CGU) para abrir sindicância e apurar os responsáveis por erros encontrados numa publicação distribuída pelo MEC para escolas rurais em todo país no final do ano passado.

    Técnicos do próprio ministério descobriram textos com frases que não terminam, contas aritméticas com resultado errado e ainda outros problemas de revisão em publicação produzida pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad).

    Um dos erros mais gritantes está no livro de matemática: lá está escrito 10 - 7 = 4 . Foram distribuídos 200 mil exemplares da coleção que tem 35 volumes e custou R$ 14 milhões.

    Os livros fazem parte de um material de apoio destinado a escolas rurais que reúnem numa mesma sala alunos de 1ª a 4ª série do ensino fundamental.

    Apesar de a sindicância só ser instalada a partir da próxima segunda-feira, os erros na publicação já provocaram uma baixa no governo: o secretário executivo da Pasta dos Direitos Humanos, André Lazaro, pediu demissão [ontem]. Ele era o chefe da Secad quando os livros foram editados e distribuídos no ano passado.

    O MEC determinou a suspensão do uso do material nas escolas.

Add comment

Fill out the form below to add your own comments.

CAPTCHA imageReload imageAudible version of CAPTCHA-image