hisham hm

Sobre meritocracia e igualdade, na sociedade e no software livre

Meu amigo Evandro postou o link para um belo texto, a que ele precedeu com o seguinte epigrama, cirúrgico:

Meritocracia individual vs meritocracia social.

Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira

Recomendo bastante a leitura.

Acho bem interessante levantar essa questão do significado de “meritocracia”. É uma palavra cuja conotação foi mudando em tempos recentes.

Há alguns anos o termo definitivamente não estava na ordem do dia. Eu nunca tinha ouvido ninguém falar.

O primeiro contato que tive com o termo era dentro de comunidades de software livre, pra explicar como as coisas funcionam lá. Ali, eu achei uma ideia ótima. Sempre fui defensor.

Recentemente, teve essa inversão. A tal “classe média reacionária” de que o texto fala começou a defender o status quo de qualquer desigualdade. E fazer isso sempre em nome da tal meritocracia. Aí as coisas começaram a ficar estranhas pra mim. Não demorou pro pessoal de esquerda abraçar o discurso “abaixo a meritocracia!”. Eu, que não nego que sou de esquerda, fiquei olhando com uma cara de “ei, peraí, mas mas…”

Aí o texto (e o preciso destaque de cinco palavras do Evandro) desata esse nó claramente. Tem uma diferença fundamental entre as meritocracias do parágrafo anterior e a do anterior a esse. A meritocracia no mundo do software livre é uma meritocracia entre membros que têm condições iguais. Todo mundo ali é programador, tem formação, acesso a computador, internet, etc. Dadas todas essas condições, aí realmente fica aquela coisa do “quem contribui mais, apita mais”. Na outra, é uma “meritocracia” onde muito poucos têm sequer chance de mostrar algum mérito. E se a maioria está de fora, é mesmo o mérito que define quem está no topo?

Só que até na meritocracia bonita do software livre a coisa tem uns furos não totalmente aparentes. E nem estou considerando que estamos olhando só pro universo da informática, o que já é uma restrição. Quem não tem o perfil típico tem dificuldades pra entrar nas “panelas”, não importam seus méritos. Vide os casos de sexismo em conferências e comunidades de desenvolvedores, por exemplo. Cadê a meritocracia? Outro ponto foi levantado por um amigo no Twitter. “Open-source development is not as much as a meritocracy as it is a have-enough-time-ocracy”… Acaba que os mais presentes/insistentes muitas vezes “vencem pelo cansaço” as discussões.

Igualitarismo é às vezes visto como o contrário do culto ao mérito. Afinal tem o problema do “freeloader” que se encosta no “sistema”, etc. Mas o que eu acho é que estruturas como a do software livre geram condições mais igualitárias por design. Considere o conceito do copyleft, por exemplo: “usou o código aberto, agora abre o seu código também”. Isso acaba abrindo mais espaço para o verdadeiro mérito se destacar, uma vez que o “campo de jogo” está mais nivelado. Software livre sozinho não resolve, vide os problemas que apontei. Além disso há modelos mais e menos simétricos de software livre. Mas acho que aponta um tipo de modelo possível. É diferente do igualitarismo “top-down” de Estado. Infelizmente, vejo essa ideia expressa muito pouco em outros lugares.

É preciso, como disse o texto, criar uma outra cultura do mérito. Além disso, precisamos de novos conceitos de igualdade. Afinal, ambos estão em falta.


Add comment

Fill out the form below to add your own comments.

CAPTCHA imageReload imageAudible version of CAPTCHA-image