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Os suíços e suas armas, parte 2: contrapontos

Recebi hoje de várias pessoas o link para o artigo “Os suiços [sic] e suas armas“, uma tradução de um texto da NRA, organização americana pró-armas, considerado o grupo de lobby mais influente dos EUA.

O assunto é interessante e relevante, mas duas coisas me incomodam a respeito do texto.

Uma, menos importante, é que certamente muita gente que lê tira dele apenas um argumento para conversa de churrasco de fim de semana do tipo “ó, mas na Suíça todo mundo tem arma e funciona!” (vide a seção de comentários).

A segunda, mais importante, é a fraqueza dos argumentos. Embora a experiência da Suíça seja sim algo a ser estudado e compreendido ao se falar da relação de uma sociedade com armas, e embora o texto faça ressalvas no início e no final de que tratam-se de sociedades diferentes e isso deve ser levado em conta, os argumentos centrais são distorções construídas de modo a pintar um quadro de que botar arma na casa de todo mundo “resolve”. Vejamos:

Num país onde o povo é armado não pode haver outra forma de governo que não seja democrático.

Mentira. Os dados desmentem: o Yemen tem propriedade de armas per capita maior que a Suíça e é uma ditadura, assim como a Arábia Saudita, que também figura no Top 10.

Uma velha anedota suíça reza que o príncipe alemão Wilhelm Hohenzollern certa vez, quando em visita a Suíça, foi convidado a assistir um dos inúmeros treinamentos militares a que os cidadãos desse país são submetidos. A um dado momento perguntou ao comandante do exercício: Quantos homens em armas você possue? Foi-lhe respondido: Um milhão. O príncipe, posteriormente Kaiser da Alemanha, então indagou:
O que você faria se cinco milhões de meus soldados cruzassem sua fronteira amanhã? Ao que o comandante suíço replicou: Cada um de meus homens daria cinco tiros e iria para casa!

Uma bela anedota pró-armas, mas mesmo que isso fosse verdade no tempo do Reino da Prússia, todos nós sabemos que hoje em dia isso é balela. Desde os avanços tecnológicos da Primeira Guerra Mundial, uma guerra não se vence pelo número de homens. E essa é uma falha central do texto: dizer que a população da Suíça ter um rifle em casa é o que defende o país. Estamos na era de armas nucleares e aeronaves não-tripuladas. Dizer em negrito e itálico que “o suíço não tem um exército: eles são o exército” pode ser muito bonito e patriótico, mas não faz disso verdade. O que protege a Suíça são os seus acordos internacionais.

Como sempre os anti-armas estão errados, mas isso não torna o grupo favorável necessariamente certo.

Não me classifico como “anti-armas”, mas acho uma frase dessas um absurdo para um texto argumentativo.

Completamente mobilizado, o exército suíço apresenta 15,2 homens por quilometro quadrado; em contraste, os EUA e a Rússia tem apenas 0,2 soldados por Km2.

A comparação é ridícula, já que não leva em conta a dimensão e densidade demográfica dos países.

Realmente, somente Israel tem mais exército por Km2.

…e veja como as coisas são pacíficas por lá. Como podemos ver, isso não prova nada para nenhum dos lados do argumento.

Em 1977, o movimento INICIATIVA MUNCHENSTEIN propôs permitir aos cidadãos a escolha do trabalho social, ou em hospitais, como alternativa ao serviço militar. A proposição foi rejeitada nas urnas e nas 2 casas do parlamento (o “Bundesversammlung’s Nationalrat” e o “Standerat”).

O que o texto não diz é que em 1992 essa proposição foi aprovada. Com 83% dos votos, os suíços votaram pela introdução de um artigo adicional à constituição, permitindo serviço civil alternativo. A lei entrou em vigor em 1996, e agora os suíços podem optar por prestar serviço civil em ONGs, trabalhando com agricultura, hospitais, centros para a juventude, proteção ambiental, pesquisa em universidades, reflorestamento, etc. Os tempos mudaram e as necessidades da sociedade também.

Os ultrajados usuários de armas suíças formaram, então, um grupo chamado Pro Tell, em homenagem do herói nacional Guilherme Tell.

Agora ele é um “herói nacional”, enquanto o próprio texto anteriormente estabelece que trata-se de uma lenda. Como muito dos argumentos do texto que tenta justificar políticas “atuais” (que, como acabamos de ver, não correspondem à realidade atual) com anedotas históricas, o grupo Pro Tell sustenta o seu nome na imagem mítica do herói armado.

A maioria dos suíços ainda vive em famílias patriarcais tradicionais. De fato, a Suíça tem a mais baixa porcentagem de mães trabalhando em relação a qualquer país europeu. Enquanto no resto do mundo as mulheres estavam lutando por igualdade de direitos, os suíços ainda estavam decidindo se as mulheres poderiam ou não votar (a longa demora na aprovação do sufrágio feminino, deve ter algo a ver com a questão dos direitos civis e o serviço militar).

As escolas são severas e os adolescentes têm menos liberdade do que na maior parte da Europa. Os estudos mostram que os adolescentes suíços, diferentemente daqueles nos outros países, sentem-se mais próximos de seus pais do que de seus amigos. A comunicação entre as gerações é muito fácil.

Entre os fatores que contribuem para a harmonia entre gerações está o serviço militar, que oferece uma oportunidade para todos os grupos masculinos interagirem entre si.

Eu conseguiria imaginar alguém da National Rifle Association escrevendo isso para o público conservador americano, mas será que algum dos meus amigos que mandou esse link acredita nessas coisas, e acha que são pontos positivos famílias patriarcais, menos direitos às mulheres, escolas severas e menos liberdade para os jovens? Bom, uma coisa que posso dizer é que outro lugar em que todas essas coisas são igualmente comuns é no mundo árabe, e portanto não acho que essas coisas geram sociedades saudáveis e democráticas.

Esse “exemplo histórico de democracia” está longe de ser um modelo ideal. As mulheres só obtiveram direito de voto em 1971, e apenas em 1985 ganharam direitos iguais no Código Civil, com uma votação de 60% a 40%.

Tudo isso, juntamente com várias outras atividades levadas a cabo na Suíça envolvendo diversas faixas etárias, têm servido para inibir a separação de gerações, alienação, e o crescimento de uma cultura jovem à parte, que tem se tornado, de maneira crescente, uma característica de muitos outros países desenvolvidos.

O texto diverge rapidamente a uma apologia ao conservadorismo.

Será que se o exército começasse a vender canhões e metralhadoras a preços subsidiados ao povo haveria um declínio da criminalidade em nosso país? Certamente não, nos primeiros trinta anos.

Como assim “nos primeiros trinta anos”? A ressalva é risível, como se distribuir canhões e metralhadores levaria a uma estabilidade de longo prazo. O próprio texto coloca que a cultura militarista na Suíça se sustenta em uma construção social de séculos e omite outros fatores importantes que viabilizam a posição de neutralidade do país. Fatores esses que, ao meu ver, são hoje os essenciais.

A Suíça manteve-se em paz no período das guerras mundiais por ser o “banco do mundo”. O franco suíço era a única moeda livremente convertível em escala mundial. Assim como tácitos acordos mantinham os QGs das forças aéreas dos Aliados e do Eixo intactos enquanto os demais prédios (e a população civil) de Berlim e Londres eram bombardeados, o valor estratégico para ambos os lados de manter instituições financeiras sólidas imunes à guerra era bem conhecido e nada tinha a ver com os rifles que a população civil guardava em casa.

Hoje, na realidade de uma Europa em processo de gradual unificação, a Suíça mantém-se como o “loophole” da União Europeia. Enquanto os países da Europa sujeitam a sua população a um conjunto cada vez maior de leis comuns, o sistema financeiro europeu tem na Suíça um ponto de apoio imune às regulamentações da União. Os acordos da UE comumente incluem ou excluem a Suíça seguindo uma lógica que mantém o status “especial” das instituições financeiras suíças enquanto gradualmente sujeitam a sua população ao mesmo conjunto de regras do resto do continente.

Cada cidadão que entra para o exército suíço recebe um exemplar do Soldatenbusch. Lá estão os rudimentos das táticas e técnicas militares, instruções sobre como se proteger das guerras nuclear, química e bacteriológica, assim como técnicas de ocultamento e construção de abrigos.

Mas o Soldatenbusch não é apenas um manual militar. Trata-se de algo mais profundo que podemos definir como um “Manual do Cidadão”. Lá, ao lado de uma sinopse da história do país, o soldado encontrará capítulos mostrando a importância da democracia, a importância da participação do soldado nos plebiscitos comunais, e a importância de sua arma na defesa desses valores.

Folheando o Soldatenbusch percebe-se que os princípios democráticos estão firmemente arraigados na população.

Serviço militar obrigatório, toda a população sujeita a um livro que é o “manual” que ensina quais devem ser os seus valores (como o Livro Vermelho de Mao Tse Tung?), resultando em uma sociedade militarista, conservadora, e com histórico reportado de racismo (e não apenas em relação àquelas com pele mais escura) e intolerância? Não, obrigado.

A discussão sobre a legislação em relação às armas na nossa sociedade é extremamente válida, mas por favor não venham usar textos como esse ou argumentos como “na Suíça todo mundo tem arma e lá é bom!”. Todos os aspectos de uma sociedade influenciam uns aos outros e produzem os resultados que aparecem nas estatísticas, tanto os positivos como os negativos. Não vamos simplificar o discurso e nem mascarar a discussão com anedotas históricas, ilusões patrióticas, conservadorismo velado e frases bonitas.