hisham hm

Improviso

Se você é uma das sete pessoas que estavam no saguão de embarque da estação rodoviária de Campinas ontem depois da meia-noite, então você me assistiu tocando piano improvisado durante uma hora e meia.

Cheguei na plataforma para pegar o ônibus das 23:59 e fui informado que a linha vinha de Cuiabá e estava atrasada, sem previsão de horário. Como que numa cena de filme, eu viro de costas para procurar um lugar para sentar e lá está um piano de cauda, que eu nunca tinha reparado que estava ali bem no centro do saguão, em frente à Casa do Pão de Queijo, que como tudo mais na rodoviária já estava fechada.

Sentei no piano, instrumento que eu não tocava há mais ou menos um ano (desde que me arrisquei em um que também dava sopa, em um café em Belo Horizonte).

Das sete pessoas do meu público, acho que umas três estavam com fone de ouvido fazendo a sua própria trilha sonora. Para as demais, toquei acho que uma hora ao todo de improviso puro, intercalando com algumas músicas que me vinham à cabeça ou que eu resolvi tirar na hora e tocar no piano pela primeira vez. O repertório teve Great Gig in the Sky, Time, Breathe, Color Bleed II, Beth Balanço e até Horizontes (”Há muito tempo que ando…”).

Toquei o mais ininterruptamente que pude, exercitando a arte de tatear procurando acordes de uma maneira que soasse minimamente musical. Não sabia se estava incomodando ou agradando quem quer que seja, até que ouvi entre uma música e outra uma mulher ao longe que reclamava com o funcionário sobre o atraso dizer “se não fosse pelo menos o rapaz tocando ali…”, sem completar a frase, mas com um tom de voz que indicava que eu estava tornando a espera menos monótona.

À uma e meia da manhã, um homem sentado ao longe apontou pra mim e pro ônibus que enfim chegava, pra me avisar. Quando fomos pra plataforma formar a nossa fila, ele me estendeu a mão pra me cumprimentar, agradeceu e disse que, em particular, curtiu o blues. A mulher da reclamação também me agradeceu: “obrigado, hein, com você tocando foi bem mais…”, de novo sem completar a frase, mas terminando com um sorriso.

Entrei no ônibus, amarrei o fom no pescoço e fui dormir feliz.


Terça-feira, 14 de junho

O motorista não para no ponto. O passageiro insiste pro motorista abrir a porta fora do ponto.

“Os dois estão errados”, eu penso, mas resisto de fazer esse comentário à senhora ao meu lado que balança a cabeça ao ver a cena.

Esse comentário colocaria uma falsa simetria onde não há: um dos lados detém o poder. Um tem o botão de abrir a porta, o outro não.

Mas numa escala maior o forte é o fraco: o motorista tem o botão da porta, mas está sujeito à escala de horários da companhia de ônibus, que o faz pular pontos pra cumprir esses horários. Agora ele é o fraco sem poder de mudar as coisas.

Lembrei daquela frase “cada dia é um 7-1 diferente”, e pensei: “cada dia é um Israel-Palestina diferente”.


Nise da Silveira era nordestina

Por sugestão da Patrícia, fomos assistir ontem “Nise - O Coração da Loucura”, excelente filme sobre o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, pioneira da psicologia junguiana no Brasil. Glória Pires viveu o papel de Nise, e o filme me cativou do começo ao fim.

No final da película, porém, imagens de arquivo com um depoimento da própria Nise (falecida em 1999 aos 94 anos) me reservaram uma surpresa: Nise da Silveira era nordestina!

Como pode um filme que se propõe a retratar a batalha dessa mulher contra as convenções da época apagar esse fato?

Em uma das primeiras cenas do filme, Nise entra em um auditório no Centro Psiquiátrico Pedro II no Rio de Janeiro, onde são apresentadas as técnicas mais “modernas” da época para lidar com doenças mentais: lobotomia e eletrochoque. Nise, a única mulher da sala — e de fato, uma das primeiras mulheres formadas em Medicina do Brasil — pede a palavra e questiona as técnicas barbáricas. E esse foi apenas o primeiro de muitos conflitos dela com os médicos ao longo do filme. Embora não falada, a barreira que se apresenta ali àquela mulher buscando respeito no meio de um grupo homogêneo de homens é evidente. Se além de mulher ela tivesse também uma fala nordestina, as cenas dela confrontando os médicos certamente iriam adquirir uma dimensão ainda mais forte.

Mas aparentemente o diretor carioca Roberto Berliner não julgou importante retratar isso no filme, ou achou que bastaria mostrar Nise no epílogo para que isso se tornasse uma não-questão. Não é. Esse é apenas mais um epiósdio que mostra como a produção cultural no Brasil é homogeneizante e a nossa diversidade vai sendo apagada.

Por mais industrializada que seja a produção americana ela me parece ter um respeito um pouco maior pela diversidade que a nossa. Alguém consegue imaginar se, num hipotético filme biográfico sobre uma médica da Louisiana quebrando tabus em Nova York, o sotaque sulista dela seria “neutralizado” (com muitas aspas, pois adotar um sotaque dominante em nada é torná-lo neutro)?

O Brasil esconde os seus sotaques na arte, a não ser quando é para fazer deles caricatura. Já vi no cinema um Getúlio Vargas que falava como carioca do início ao fim do filme exceto em uma cena onde “queria comer um churrasco”. E ainda assim isso não é comparável, pois os gaúchos não sofrem o preconceito sistemático que os nordestinos sofrem no resto do Brasil.

Lembro de uma pichação que vi nos muros da cidade: MACHADO DE ASSIS ERA NEGRO. Lembro do meu choque quando aprendi esse fato somente na vida adulta. Espero que as escolas hoje em dia façam um trabalho melhor de que no meu tempo. Espero também que no futuro o cinema faça um trabalho melhor do que no tempo de hoje.

Em suma, o que eu gostaria de dizer é: assistam ‪”Nise - O Coração da Loucura”, é realmente muito bom, mas não esqueçam: Nise da Silveira era alagoana, formada na Bahia, e não falava com o sotaque carioca da Glória Pires.


Sexta-feira, 12 de fevereiro

Metrô do Rio, tarde de sexta-feira pós-carnaval. (Pós? O fim de semana está aí pra quem ainda tiver energia.)

Um grupo de quatro rapazes daquele estilo “carioca sarado”, bronzeados, camisetas regatas, óculos escuros, latinha de cerveja na mão, entram no carro. Batendo papo, dando risadas. Mas sem fazer muito escarcéu, como se cientes de que, para muita gente não tão sortuda quanto eles, o carnaval já acabou.

O trem chega na minha parada. Levanto para sair. Enquanto eu chegava na porta, um dos rapazes lê a estampa nas costas da minha camiseta e grita:

— Software livre!

Eu nem me viro, apenas ergo o braço direito com o punho cerrado, aquele antigo gesto de irmandade de tantos grupos de resistência.

Os rapazes não resistem e fazem um pequeno escarcéu soltando gritos de aprovação enquanto eu saio do trem.


O mundo não acaba na fronteira

Sempre me entristece quando eu lembro de como as notícias promovem uma visão de mundo que, bem, não é uma “visão de mundo”, mas só do nosso próprio umbigo.

Ilustro com dois episódios:

Enchentes no sul. Acompanhamos as notícias sobre as enchentes no sul do Brasil. Vi imagens, relatos sobre estado de emergência, reações do governo, etc.

Mas se não fosse a Al Jazeera English​ não teria visto nada sobre a real escala do que aconteceu:

South America: Over 160,000 flee worst floods in 50 years

Paraguay, Argentina, Uruguay, Brazil and Bolivia have been battered by heavy rains blamed on the El Nino phenomenon.”

Zika vírus. Eu ligo a TV e vejo manchetes sobre a epidemia do zika vírus, especialmente na região Nordeste e sobre como ele está se alastrando pelo Brasil.

Mas se não fosse a internet não teria visto nada sobre isso:


Mapa interativo sobre a epidemia do zika

O mundo não acaba quando chegamos na linha imaginária da fronteira nacional. As pessoas sofrendo do lado de lá são tão gente quanto as que estão sofrendo do lado de cá.

Uma vez tive uma discussão sobre isso com não-lembro-quem, que me dizia que o importante era se preocupar com as questões brasileiras em especial, onde eu precisei insistir: “por que a vida de uma pessoa que eu não conheço, totalmente estranha pra mim, que mora em Rivera, Uruguai, seria menos importante pra mim do que a vida de outro estranho qualquer que mora em Santana do Livramento, RS, Brasil, separados por apenas uma rua?”