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Hoje tem novo protesto contra o aumento das passagens no Rio

Ano passado, os protestos começaram com o aumento de 20 centavos se amplificaram, fenômeno que todos lembramos. Conversei sobre política com pessoas com quem nunca tinha conversado. Ao meu ver o que aconteceu em 2013 deixou marcas fortes e positivas em muita gente.

Esse ano, porém, o aumento de 25 centavos passou virtualmente batido pela opinião pública. A única questão mais discutida foi a trágica morte do cinegrafista, que teve o efeito colateral de afastar as pessoas ainda mais das manifestações. Fui em três atos desde que a passagem subiu: aquele onde o cinegrafista morreu e dois seguintes. Estes últimos foram muito pacíficos e tiveram cobertura intensa da imprensa, brasileira e internacional. Curiosamente, a Etiene acabou dando entrevista pra repórteres estrangeiros em duas ocasiões diferentes.

Vejo lá muitos estudantes, alguns membros dos partidos de oposição à esquerda, e uma que outra pessoa que está lá para levantar uma causa específica. Me chama a atenção que não tenho visto nas manifestações os sindicatos. Ano passado eles eram muito presentes e tinham papel de organização. Também não vejo aquela “população em geral”, muitos dos quais, foram pra rua pela primeira vez nos eventos do ano passado.

Não tenho visto os protestos ganharem momentum. Falo com amigos e me dizem que estão com medo de participar. A pouca diversidade de representação nos protestos está tornando o discurso mais homogêneo, mas isso também afasta as pessoas. O protesto de hoje se diz contra o aumento da passagem mas também “pela estatização dos transportes”. Essa última é uma bandeira que muita gente não defende, e com a qual eu tenho pé atrás. Ao fim, vai deixando de ser um protesto plural e vai chegar uma hora que eu também não vou querer defender uma bandeira que não é a minha.

Meu pé atrás maior, porém, é com a tônica dos protestos. Os estudantes gostam das palavras de efeito, os velhos slogans românticos da esquerda. Mas ao mesmo tempo perdem totalmente a oportunidade de falar com a opinião pública, de gerar empatia. Como eu comentei no último protesto, só quem está aqui, ouvindo os gritos são os policiais e os jornalistas. O Cabral não está lá e nem quer saber. Então em vez de fazer as demandas, perde-se tempo antagonizando os presentes? Pelo menos eles estão aqui. Em vez de gritar pros policiais “au au au cachorrinho do Cabral”, não faz infinitamente mais sentido aquele outro grito “você aí fardado, também é explorado”? O primeiro meramente extravasa a agressividade de quem grita, parecendo uma criança que atiça um cachorro brabo preso na corrente no quintal. Só gera mais raiva. O segundo grito gera empatia; porque é uma verdade: o policial sabe que é explorado. O policial faz cara feia e não perde a pose, mas ao ouvir o segundo grito, a gente sabe que por dentro ele concorda.

Minha impressão é que aquele público ali, formado principalmente por estudantes, quer em sua maioria protestar porque é o happening, a coisa a se fazer. No fundo a gente sabe que não estão ali realmente pelo aumento da passagem, é mais pela vontade de que os protestos cresçam até o que foram ano passado. Mas falta algo de real nos protestos. Ficam gritando sem parar “não vai ter copa”, um grito que foi remendado para “não vai ter copa e nem aumento”. É claro que vai ter copa! E o aumento já teve! Dá vontade de chacoalhar as pessoas ali e dizer “parem de brincar, bora falar sério!”

Depois de tudo que aconteceu ano passado, eu considerei esse aumento um insulto. Uma retaliação prática que fiz foi basicamente parar de andar de ônibus. Se é pra pagar R$3,00 por esse serviço que está sendo provido, eu pago R$3,20 e vou e volto da PUC de metrô com ar condicionado. Fazendo as contas, o que eu deixo de pagar pro cartel dos ônibus é como se eu tivesse “cancelado a NET” e mudado de provedor. É pouco mas é algo. Claro que estou numa situação peculiar de morar num lugar que é servido pelo metrô (precisei andar de ônibus uma vez apenas nas duas últimas semanas). Na real estou até satisfeito com a troca: apesar de agora precisar fazer uma conexão, na média o tempo que eu gasto é o mesmo. Infelizmente, foi anunciado hoje que ao contrário do anunciado anteriormente a tarifa do metrô também vai aumentar. O único jornal que colocou isso na manchete hoje foi o tablóide “Povo”, que o jornaleiro do meu bairro fez questão de pendurar com destaque. (http://jornalpovo.com)

Protestos, manifestar o descontentamento, funcionam. Em função do repúdio ao Marco Feliciano, esse ano a bancada do PT não vai deixar a Comissão de Direitos Humanos na mão do PSC. Ano passado a passagem abaixou, a presidente entrou em cadeia nacional, ações foram realizadas. Os protestos desse mês, embora ainda não cheguem perto dos do ano passado, já geraram reação virulenta de Veja e cia. Isso significa que estão sim incomodando. E com a proximidade da copa, espera-se que o que aconteceu ano passado seja relembrado. O que eu desejo é que até lá essa resistência já esteja mais amadurecida. Depende de cada um de nós.

Hoje eu vou mais uma vez ao protesto. Sempre um pouco como observador, vendo pra que lado a coisa vai, mas sempre que concordar com o grito, juntarei a minha voz. Estarei na Candelária lá pelas 18h. Apareçam! Ajudem a dar um bom rumo à coisa. O protesto só será não-violento e sensato se os sensatos e não-violentos forem.


Uma postura radical de não-violência é o único caminho que progride

Estou cansado de ouvir da esquerda “ah, eu não faria mas eu não julgo quem faz quebra-quebra, é válido também” e estou cansado de ouvir da direita “o povo está cansado e uma hora tem que pegar em armas e fazer justiça com as próprias mãos”. Independentemente se vocês acham isso moralmente certo ou errado, isso NÃO FUNCIONA.

Olhem pro mundo à volta de vocês se querem mais exemplos de onde esse tipo de postura leva.

Li um livro muito interessante esses dias, “Não-violência”, de Mark Kurlansky, que embasou algumas coisas que eu pensava e trouxe alguns exemplos muito válidos.

Índia. Resistência armada aos ingleses foi sempre fútil. Eventualmente os ingleses se alinharam com os poderosos da Índia para controlar o povo: os reis locais continuaram governando, mas em deferência à Inglaterra. Somente a resistência não-violenta de Gandhi foi capaz de unir os povos da Índia pela causa comum de expelir os ingleses.

Num conflito, é preciso ganhar a mente da maioria. Táticas como black blocs alienam a massa. E a massa tem direito (e ao meu ver razão) de não apoiar.

África do Sul. Antes de ser preso, Mandela liderava uma guerrilha contra o governo que nunca deu em nada. A organização dele, ANC, figurava em listas internacionais de terrorismo até poucos anos. Somente ao renunciar a guerrilha e abrir a conversações que se deram passos à frente.

Outros exemplos que não estavam no livro, mas que eu lembro por ter acompanhado. Vou escrevendo à medida que vou lembrando.

Irlanda do Norte. Décadas de conflitos sangrentos em uma guerra com motivação religiosa. A única coisa que anvançou entre IRA e os unionistas foi o número de mortos, até que se aceitou conversar, e não foi então o IRA, mas o seu braço político, o Sinn Fein, quem travou o acordo de paz.

Palestina. Depois de tantas guerras perdidas nos anos 40, 50, 60 e 70, nos anos 80 a OLP decide baixar as armas. Paus e pedras contra rifles e tanques, pro mundo todo ver. Paus e pedras ainda não são não-violência, mas comparado ao que se tinha antes, foi um passo à frente. Resultado: a OLP é reconhecida mundialmente como representante do povo palestino e nos anos 90 foi criada a Autoridade Palestina e se progredia por um caminho de paz, até que os dois lados retomaram o conflito armado que acabou resultando na divisão política de Gaza e Cisjordânia, enfraquecendo ainda mais os palestinos.

A cartada de mestre do desgraçado Sharon: bastaria incitar a violência (com o gesto simbólico da visita que ele fez à mesquita ocupada), que com a violência tudo que os palestinos construíram iria por água abaixo.

Primavera árabe. Egito. Protestos pacíficos seguidos de repressão policial. O povo explicitamente decidiu não revidar e se manter pacífico na praça. A cidade estava sem lei. A população se organizou para manter a ordem e impedir saques, quebra-quebra, até organizar o trânsito. O governo caiu.

Síria. Protestos pacíficos seguidos de repressão policial. O povo pegou em armas seguindo o exemplo da Líbia (onde o governo não foi derrubado pela força de guerrilha do povo, mas pelo suporte da OTAN). O suporte da OTAN não veio. Três anos de guerra civil, incontáveis mortos e milhões de refugiados.

Os sucessos e fracassos da Primavera Árabe se correlacionam muito com a atitude da população nos levantes de cada país.

Colômbia. Governo é um estado cliente dos Estados Unidos. Grupos de esquerda se organizam para tomar o país de volta por meio de táticas violentas. A violência segue, segue, mas sem progresso. As “forças revolucionárias” acabam se tornando um fim em si mesmas, com o objetivo de manter o próprio poder, baseados na força econômica do narcotráfico. De uns anos pra cá, pela primeira vez a ideia de conversações de paz tem entrado em pauta, muito em função do desgaste público das FARC. Vamos torcer.

México. Na guerra contra o narcotráfico formaram-se recentemente grupos vigilantes civis que se intitulam “forças de autodefesa” em que a população pegou em armas para retomar cidades controladas pelo cartel. O movimento já tem mais de 20 mil pessoas envolvidas. O governo tem apoiado e legalizou o funcionamento dos grupos em determinadas regiões. Parece um cenário de sonho para aquelas pessoas que acham que “o povo tem que fazer justiça com as próprias mãos”, mas é só comparar com o que já aconteceu em outros lugares pra ver que é questão de tempo até que esses grupos se tornem um fim em si mesmos.

O que sustenta o poder são as pessoas, seja numa democracia, seja numa ditadura. Táticas de resistência que alienam a população servem unicamente ao poder estabelecido. Há de se saber as maneiras de resistir. E seguir resistindo.

“Every generation has to fight the same battles. And there is no final victory. And there is no final defeat.” — Tony Benn