hisham hm

🔗 Velho Mundo e Novo Mundo

Às vezes as pessoas fazem uma cara engraçada quando estou falando de algum assunto — tipicamente cultura ou política — e eu uso as expressões Velho Mundo e Novo Mundo. Parece que eu falei algum anacronismo, ou que estou resgatando algum conceito empoeirado lá das aulas da sétima série.

Hoje vi um mapa que me relembrou dessa distinção, então acho que ajuda a pôr no concreto o quanto ela existe e ainda transparece nos dias de hoje.

Países onde a pessoa se torna um cidadã simplesmente por nascer dentro dele:

Legenda:

  • preto - sim
  • branco - não
  • cinza - não pôde ser confirmado

(Via esse post no Twitter)

🔗 Adeus, Galeano

A palestra dele na PUC-Rio está gravada na minha mente, que momento lindo foi aquele. Quando pessoas como ele se vão, eu sinto um peso de responsabilidade maior nas costas. Não é prepotência, pois não estou me comparando com ele. Mas dá uma sensação de que “agora é com a gente”, todos nós que ainda estamos por aqui, o dever de redobrar o envolvimento, não se omitir, trabalhar para abrir as cabeças e tornar esse mundo um lugar melhor. Nenhum de nós é um Galeano, mas juntos todos somos um pouquinho ele.

🔗 Para começar a entender a alta do dólar

Quem olhar só o primeiro gráfico (BRLxUSD, variação de 12 meses, screenshot que tirei na semana passada) vai entrar em pânico e achar “meu Deus, o Brasil isso-e-aquilo, olha o dólar!!!”

Mas aí a gente olha o segundo gráfico (BRLxEUR, mesmo período) e vê que em relação ao euro, o real segue na mesma toada do último ano, subindo e descendo numa janela de uns 13% de variação. Peraí, ué, como é que só o dólar sobe loucamente e o euro não?

A resposta tá no terceiro gráfico (USDxEUR, mesmo período) : não é o real que tá caindo, é o dólar que tá subindo em relação às outras moedas. Quem quiser, busque os gráficos em relação à libra esterlina, ao iene… todos iguais.

E se tiver curiosidade, repare também no gráfico da cotação do petróleo. É basicamente a mesma coisa na direção inversa. Aí as relações lógicas começam a se formar melhor.

Pra entender o mundo, tem que olhar pra ele inteiro.

🔗 Vai faltar água, e esse é o plano

Você lembra que todo mundo tinha filtros de água quando éramos crianças? Que não se comprava água mineral pra beber em casa? Que as marcas de água mineral que existiam eram todas regionais?

Olhe em volta. A água “Petrópolis” aqui do Rio já não é de Petrópolis, é da Nestlé. No RS outras marcas clássicas foram compradas.

Enquanto isso, na mídia o assunto é “crise hídrica”, e só se sabe falar se a culpa é desse governo ou daquele. Quando se brada a suposta incompetência dos governos, qual é a conclusão a que querem induzir?

Não precisamos fazer ilações, o CEO da Nestlé diz com todas as letras nesse vídeo. Assistam, por favor:

A sua visão é de que acesso à água não é um direito humano, não é uma questão de ordem pública. Ele diz que deve ser privatizada, pois é “matéria prima como outra qualquer e deve estar sujeita às leis de oferta e procura do mercado”.

O projeto segue firme e forte em andamento. Já me disse a Adriana Hashem esses dias: “as pessoas dizem que a África é atrasada, mas a África é o futuro”, no sentido de que o que acontece lá ainda vai acontecer aqui. Lá em muitos lugares o acesso à água já está devidamente privatizado e restringido. Não vai faltar pra quem pagar o preço que o mercado ditar, e não importa quantos vão ficar sem.

“Êxodo iminente por falta de água em São Paulo“? A falta já é e será ainda mais seletiva, e critérios serão os escolhidos pelo CEO da Nestlé, a velha “lei do mercado”. Então quer dizer que de quebra isso vai resolver o “problema” das “pessoas diferenciadas” em SP e outros lugares? Maravilha, hein? Vai ter muita gente a favor.

🔗 Eduardo Jorge e a perpetuação dos estereótipos

Eduardo Jorge era o candidato mais atento no debate. Ele sabia a sequência dos candidatos a serem perguntados antes de o Bonner dizer. Ele corrigiu o Bonner em mais de um momento sobre a hora de quem deveria falar.

Enquanto isso, os outros perguntavam “pra quem posso perguntar agora?”. A Marina seguiu respondendo depois da tréplica e continuou falando mesmo quando mandaram parar. A Dilma volta e meia atropelava as palavras e não formava frases completas. O Aécio respondeu a uma pergunta “vamos conversar sobre [um assunto sério]” com “eu sempre gosto de conversar com você”. O William Bonner passou o debate inteiro risonho e distraído.

Se o Eduardo Jorge tivesse feito qualquer uma dessas coisas, haveriam 300 memes na internet dizendo “que é porque ele estava chapado”. Mesmo sem ele ter feito nenhuma dessas coisas, tiveram 300 memes durante o debate dizendo que ele estava “chapado”, chamando ele de “maconheiro”, com essas palavras.

O pior é que vejo essas piadas vindo de todos os lados, desde o colunista da Veja até militantes da descriminalização da maconha. Será que esses últimos não veem que estão fazendo um desserviço a si mesmos? Por mais que nesse caso tenha um ar de cumplicidade marota, na prática apenas perpetua a estereotipação.

Da mesma forma, na eleição passada, quando o Plínio de Arruda Sampaio dava a real nos debates, jorravam piadas de que ele era um “velho gagá”, tipo o vovô que fala as verdades incovenientes na mesa de jantar porque já chegou na idade de “ligar o foda-se”. É o discurso do preconceito.

É óbvio que a pessoa ser sorridente e descontraída não significa que ela está usando maconha, mas quando é com o Eduardo Jorge, lá vem a piada pronta. E claramente são dois pesos e duas medidas: Pros lapsos do Bonner no debate, as piadas eram que ele estava “distraído com o Twitter”.

Eduardo Jorge foi o único candidato que falou no debate algo de completo sobre a questão de política de drogas, indo desde a questão de política de segurança (lado esse que a Luciana Genro também citou muito bem na questão da “guerra aos pobres”) até a problemática de saúde no tratamento de usuários dependentes, que não pode ser deixada de lado. É triste ver que a única repercussão da internet, até das pessoas que eu acho que supostamente deveriam ser as mais interessadas nisso, é compartilhar memes dizendo “haha, maconheiro!”.


PS: Eu sempre odiei que toda vez que eu faço ou digo algo criativo/maluco/surrealista, alguém sempre faz a piada pronta “pô, me dá isso aí que tu tá tomando!”, como se alguém só pudesse ser criativo usando drogas. Eu sei muito bem ser fora-da-casinha por conta própria, muito obrigado.


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