hisham hm

Sobre a fala dos estrangeiros

A reportagem abaixo me instigou a escrever esse post. Vejam o vídeo.

Em bom portunhol, D’Ale brinca com garrafa: “Se estava cheia, guardava”

A intolerância das pessoas com a fala dos estrangeiros me irrita. Se os repórteres do SporTV acham que o que o D’Alessandro fala é “portunhol”, então eles definitivamente não iam achar que o meu pai, que viveu quase 50 anos no Brasil, falava português.

O D’Alessandro mora no Brasil desde 2008 — acompanhei desde o início quando ele era acanhado para dar entrevistas até os dias de hoje quando ele é o capitão do time e sempre a referência na hora de falar. Eu sempre brinco que no RS os repórteres botam os jogadores de língua espanhola pra falar no rádio e não estão nem aí, e que a gente tem uma adaptação mais natural ao portunhol, mas sinceramente, a essa altura do campeonato chamar o português do cara de “portunhol” ainda, é dose.

Pra piorar, fizeram questão de expor o deslize gramatical dele no título, coisa que eu já cansei de ver corrigirem na transcrição quando entrevistam jogadores falantes nativos de português. E ainda aposto que quem escreveu essa matéria ainda achou que estava elogiando, ao chamar o “portunhol” dele de “bom”.


Velho Mundo e Novo Mundo

Às vezes as pessoas fazem uma cara engraçada quando estou falando de algum assunto — tipicamente cultura ou política — e eu uso as expressões Velho Mundo e Novo Mundo. Parece que eu falei algum anacronismo, ou que estou resgatando algum conceito empoeirado lá das aulas da sétima série.

Hoje vi um mapa que me relembrou dessa distinção, então acho que ajuda a pôr no concreto o quanto ela existe e ainda transparece nos dias de hoje.

Países onde a pessoa se torna um cidadã simplesmente por nascer dentro dele:

Legenda:

(Via esse post no Twitter)


Adeus, Galeano

A palestra dele na PUC-Rio está gravada na minha mente, que momento lindo foi aquele. Quando pessoas como ele se vão, eu sinto um peso de responsabilidade maior nas costas. Não é prepotência, pois não estou me comparando com ele. Mas dá uma sensação de que “agora é com a gente”, todos nós que ainda estamos por aqui, o dever de redobrar o envolvimento, não se omitir, trabalhar para abrir as cabeças e tornar esse mundo um lugar melhor. Nenhum de nós é um Galeano, mas juntos todos somos um pouquinho ele.


Para começar a entender a alta do dólar

Quem olhar só o primeiro gráfico (BRLxUSD, variação de 12 meses, screenshot que tirei na semana passada) vai entrar em pânico e achar “meu Deus, o Brasil isso-e-aquilo, olha o dólar!!!”

Mas aí a gente olha o segundo gráfico (BRLxEUR, mesmo período) e vê que em relação ao euro, o real segue na mesma toada do último ano, subindo e descendo numa janela de uns 13% de variação. Peraí, ué, como é que só o dólar sobe loucamente e o euro não?

A resposta tá no terceiro gráfico (USDxEUR, mesmo período) : não é o real que tá caindo, é o dólar que tá subindo em relação às outras moedas. Quem quiser, busque os gráficos em relação à libra esterlina, ao iene… todos iguais.

E se tiver curiosidade, repare também no gráfico da cotação do petróleo. É basicamente a mesma coisa na direção inversa. Aí as relações lógicas começam a se formar melhor.

Pra entender o mundo, tem que olhar pra ele inteiro.


Vai faltar água, e esse é o plano

Você lembra que todo mundo tinha filtros de água quando éramos crianças? Que não se comprava água mineral pra beber em casa? Que as marcas de água mineral que existiam eram todas regionais?

Olhe em volta. A água “Petrópolis” aqui do Rio já não é de Petrópolis, é da Nestlé. No RS outras marcas clássicas foram compradas.

Enquanto isso, na mídia o assunto é “crise hídrica”, e só se sabe falar se a culpa é desse governo ou daquele. Quando se brada a suposta incompetência dos governos, qual é a conclusão a que querem induzir?

Não precisamos fazer ilações, o CEO da Nestlé diz com todas as letras nesse vídeo. Assistam, por favor:

A sua visão é de que acesso à água não é um direito humano, não é uma questão de ordem pública. Ele diz que deve ser privatizada, pois é “matéria prima como outra qualquer e deve estar sujeita às leis de oferta e procura do mercado”.

O projeto segue firme e forte em andamento. Já me disse a Adriana Hashem esses dias: “as pessoas dizem que a África é atrasada, mas a África é o futuro”, no sentido de que o que acontece lá ainda vai acontecer aqui. Lá em muitos lugares o acesso à água já está devidamente privatizado e restringido. Não vai faltar pra quem pagar o preço que o mercado ditar, e não importa quantos vão ficar sem.

Êxodo iminente por falta de água em São Paulo“? A falta já é e será ainda mais seletiva, e critérios serão os escolhidos pelo CEO da Nestlé, a velha “lei do mercado”. Então quer dizer que de quebra isso vai resolver o “problema” das “pessoas diferenciadas” em SP e outros lugares? Maravilha, hein? Vai ter muita gente a favor.