hisham hm

Quarta-feira, 31 de agosto

Andando pela Marquês de Abrantes, eu paro porque vejo uma multidão, a uma boa distância, olhando para um ponto. Algo aconteceu.

Assalto? Briga? Melhor ficar longe. Eu vou perguntar pro jornaleiro e reparo que ele está rindo da cena.

“Um cara aí desandou a gritar, aí atravessou a rua e foi se estranhar com outro que gritou de volta, contra a Dilma, a favor da Dilma, uma confusão!”

Eu tento identificar a confusão de longe pra ver se está tranquilo passar, mas já parece dispersa.

O jornaleiro diz: “ó, la vem ele!”

Um homem branco de terno e gravata, de uns 40 anos, com um sorriso de ponta a ponta, levando de mãos dadas a esposa, quieta. Ele segue balançando a outra mão pro alto e gritando pela rua “Quem votou em Dilma, votou em Temer!”, repetindo sem parar.


Automatizando a espera na fila do ingresso do GnR

Entrei no site da venda de ingressos pro Guns n’ Roses às 10 da noite (22:02 talvez?).

“Sua posição na fila é 25504”.

Fui até uma meia-noite e pouco olhando o número cair lentamente, até que o Rakan me lembrou que eu sei programar, aí eu escrevi esse script abaixo pra “tocar um alarme” quando a fila chegasse perto no final. Botei o computador do lado da cama e fui dormir. 7 da manhã do dia seguinte, acordo ao som de Nightrain ao vivo. Acompanhei os momentos finais da fila e, enfim, consegui comprar o meu ingresso!


Uma descoberta interessante sobre Veja X14 Tira Limo

Hoje eu me senti espertinho no supermercado (ou, segundo os ensinamentos do Livro de Detsch, eu senti que fui burro da vez passada).

Fui comprar Veja X14 Tira Limo no supermercado. Tava tipo 14 reais, frasco de 500ml. Aí resolvi ler no verso a composição pra ver se tinha algum outro produto equivalente.

“Ingrediente ativo: hipoclorito de sódio”

Também conhecido como: água sanitária. Comprei uma garrafa de 2 litros por 4 reais, voltei pra casa, e enchi o tubinho de X14 que eu tinha, com o conveniente bico aplicador. Funcionou tal-e-qual!


Improviso

Se você é uma das sete pessoas que estavam no saguão de embarque da estação rodoviária de Campinas ontem depois da meia-noite, então você me assistiu tocando piano improvisado durante uma hora e meia.

Cheguei na plataforma para pegar o ônibus das 23:59 e fui informado que a linha vinha de Cuiabá e estava atrasada, sem previsão de horário. Como que numa cena de filme, eu viro de costas para procurar um lugar para sentar e lá está um piano de cauda, que eu nunca tinha reparado que estava ali bem no centro do saguão, em frente à Casa do Pão de Queijo, que como tudo mais na rodoviária já estava fechada.

Sentei no piano, instrumento que eu não tocava há mais ou menos um ano (desde que me arrisquei em um que também dava sopa, em um café em Belo Horizonte).

Das sete pessoas do meu público, acho que umas três estavam com fone de ouvido fazendo a sua própria trilha sonora. Para as demais, toquei acho que uma hora ao todo de improviso puro, intercalando com algumas músicas que me vinham à cabeça ou que eu resolvi tirar na hora e tocar no piano pela primeira vez. O repertório teve Great Gig in the Sky, Time, Breathe, Color Bleed II, Beth Balanço e até Horizontes (”Há muito tempo que ando…”).

Toquei o mais ininterruptamente que pude, exercitando a arte de tatear procurando acordes de uma maneira que soasse minimamente musical. Não sabia se estava incomodando ou agradando quem quer que seja, até que ouvi entre uma música e outra uma mulher ao longe que reclamava com o funcionário sobre o atraso dizer “se não fosse pelo menos o rapaz tocando ali…”, sem completar a frase, mas com um tom de voz que indicava que eu estava tornando a espera menos monótona.

À uma e meia da manhã, um homem sentado ao longe apontou pra mim e pro ônibus que enfim chegava, pra me avisar. Quando fomos pra plataforma formar a nossa fila, ele me estendeu a mão pra me cumprimentar, agradeceu e disse que, em particular, curtiu o blues. A mulher da reclamação também me agradeceu: “obrigado, hein, com você tocando foi bem mais…”, de novo sem completar a frase, mas terminando com um sorriso.

Entrei no ônibus, amarrei o fom no pescoço e fui dormir feliz.


Terça-feira, 14 de junho

O motorista não para no ponto. O passageiro insiste pro motorista abrir a porta fora do ponto.

“Os dois estão errados”, eu penso, mas resisto de fazer esse comentário à senhora ao meu lado que balança a cabeça ao ver a cena.

Esse comentário colocaria uma falsa simetria onde não há: um dos lados detém o poder. Um tem o botão de abrir a porta, o outro não.

Mas numa escala maior o forte é o fraco: o motorista tem o botão da porta, mas está sujeito à escala de horários da companhia de ônibus, que o faz pular pontos pra cumprir esses horários. Agora ele é o fraco sem poder de mudar as coisas.

Lembrei daquela frase “cada dia é um 7-1 diferente”, e pensei: “cada dia é um Israel-Palestina diferente”.