hisham hm

Leituras no ônibus

Ônibus lotado, cheio de pessoas nos seus telefones. Me ocorre o pensamento de que hoje se lê mais. Sim, de que o número de palavras por dia que as pessoas leem hoje, se contarmos tudo, Facebook, Whatsapp, deve ser maior do que em outros tempos.

Olho à volta, há uma senhora lendo um jornal, daqueles de papel. Pensei: “bom, talvez ela seja daquelas pessoas que não fez a transição pra vida digital”. O assento ao lado dela libera, eu sento.

Li uma coluna do segundo caderno, como papagaio de pirata. Obrigado jornal pelas letras grandes. Vejo outra pessoa deixando um comentário no Facebook. Se bobear hoje as pessoas escrevem mais também.

A senhora guarda o jornal na bolsa, acabou a leitura dela e a minha também. Pega o telefone. Achei que estava olhando a lista de contatos para fazer uma ligação, mas era o GMail. Uma rápida checada na caixa de entrada e ela volta para a home screen. Entra no Whatsapp. Ela tem um grupo chamado “Colegas do C. São José 1960”. Eu paro de espiá-la e pego meu telefone pra escrever.


Quem não tá entendendo o que tá rolando, só imagine…

Compartilhando o post de Heitor Korndorfer, que eu havia compartilhado no Facebook anteriormente e que desapareceu durante o dia de hoje, aparentemente por causa de um bug no Facebook.

Segue o post do Heitor abaixo:


Quem não tá entendendo o que tá rolando, só imagine:

- Você é professor, se fode pra caralho, e paga há anos uma parte do seu salário para o fundo de previdência estadual.
- Um governador QUEBRA o estado financeiramente. Ele e integrantes de sua família são investigados por corrupção. Jornalistas que investigam o caso são ameaçados de morte. [1]
- Este governador precisa de dinheiro pois não consegue nem colocar combustível nas viaturas da polícia do estado. [2]
- Onde ele vai arranjar dinheiro? Exatamente no fundo que você pagou durante toda a sua vida para a sua previdência. Para efetivar esse roub.. quer dizer, artifício, ele precisa mudar a lei.
- Ele tem a assembleia legislativa aos seus pés, e com trocas políticas garante que os deputados vão aprova-la.
- Você fica puto, pois se essa lei for aprovada, os pagamentos da previdência só ficarão com fundos garantidos até 2021. Ou seja, ele vai usar o dinheiro da SUA aposentadoria para consertar o rombo que ELE MESMO criou, e você poderá ficar a ver navios nessa.
- O que fazer? ÓBVIO, você entra em greve. Aí ele mexe uns pauzinhos para o pessoal do judiciário mandar os professores de volta as aulas e ameaça descontar seu salário.
- Você continua lá, vai lutar pelos seus direitos, não interessa o salário de hoje. Interessa a sua aposentadoria.

- Você volta pra casa assim.

[1] http://oglobo.globo.com/brasil/jornalistas-que-investigam-denuncias-de-corrupcao-pedofilia-sao-ameacados-no-parana-15914287
[2] http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/por-falta-de-pagamento-mais-viaturas-da-pm-ficam-sem-combustivel-4qrkthgxolxxkrjpra04n4t3i

foto: Gabriel Rosa/Secretaria Municipal de Comunicação Social


Sobre a fala dos estrangeiros

A reportagem abaixo me instigou a escrever esse post. Vejam o vídeo.

Em bom portunhol, D’Ale brinca com garrafa: “Se estava cheia, guardava”

A intolerância das pessoas com a fala dos estrangeiros me irrita. Se os repórteres do SporTV acham que o que o D’Alessandro fala é “portunhol”, então eles definitivamente não iam achar que o meu pai, que viveu quase 50 anos no Brasil, falava português.

O D’Alessandro mora no Brasil desde 2008 — acompanhei desde o início quando ele era acanhado para dar entrevistas até os dias de hoje quando ele é o capitão do time e sempre a referência na hora de falar. Eu sempre brinco que no RS os repórteres botam os jogadores de língua espanhola pra falar no rádio e não estão nem aí, e que a gente tem uma adaptação mais natural ao portunhol, mas sinceramente, a essa altura do campeonato chamar o português do cara de “portunhol” ainda, é dose.

Pra piorar, fizeram questão de expor o deslize gramatical dele no título, coisa que eu já cansei de ver corrigirem na transcrição quando entrevistam jogadores falantes nativos de português. E ainda aposto que quem escreveu essa matéria ainda achou que estava elogiando, ao chamar o “portunhol” dele de “bom”.


Velho Mundo e Novo Mundo

Às vezes as pessoas fazem uma cara engraçada quando estou falando de algum assunto — tipicamente cultura ou política — e eu uso as expressões Velho Mundo e Novo Mundo. Parece que eu falei algum anacronismo, ou que estou resgatando algum conceito empoeirado lá das aulas da sétima série.

Hoje vi um mapa que me relembrou dessa distinção, então acho que ajuda a pôr no concreto o quanto ela existe e ainda transparece nos dias de hoje.

Países onde a pessoa se torna um cidadã simplesmente por nascer dentro dele:

Legenda:

(Via esse post no Twitter)


Adeus, Galeano

A palestra dele na PUC-Rio está gravada na minha mente, que momento lindo foi aquele. Quando pessoas como ele se vão, eu sinto um peso de responsabilidade maior nas costas. Não é prepotência, pois não estou me comparando com ele. Mas dá uma sensação de que “agora é com a gente”, todos nós que ainda estamos por aqui, o dever de redobrar o envolvimento, não se omitir, trabalhar para abrir as cabeças e tornar esse mundo um lugar melhor. Nenhum de nós é um Galeano, mas juntos todos somos um pouquinho ele.