hisham hm

Terça-feira, 14 de junho

O motorista não para no ponto. O passageiro insiste pro motorista abrir a porta fora do ponto.

“Os dois estão errados”, eu penso, mas resisto de fazer esse comentário à senhora ao meu lado que balança a cabeça ao ver a cena.

Esse comentário colocaria uma falsa simetria onde não há: um dos lados detém o poder. Um tem o botão de abrir a porta, o outro não.

Mas numa escala maior o forte é o fraco: o motorista tem o botão da porta, mas está sujeito à escala de horários da companhia de ônibus, que o faz pular pontos pra cumprir esses horários. Agora ele é o fraco sem poder de mudar as coisas.

Lembrei daquela frase “cada dia é um 7-1 diferente”, e pensei: “cada dia é um Israel-Palestina diferente”.


Nise da Silveira era nordestina

Por sugestão da Patrícia, fomos assistir ontem “Nise - O Coração da Loucura”, excelente filme sobre o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, pioneira da psicologia junguiana no Brasil. Glória Pires viveu o papel de Nise, e o filme me cativou do começo ao fim.

No final da película, porém, imagens de arquivo com um depoimento da própria Nise (falecida em 1999 aos 94 anos) me reservaram uma surpresa: Nise da Silveira era nordestina!

Como pode um filme que se propõe a retratar a batalha dessa mulher contra as convenções da época apagar esse fato?

Em uma das primeiras cenas do filme, Nise entra em um auditório no Centro Psiquiátrico Pedro II no Rio de Janeiro, onde são apresentadas as técnicas mais “modernas” da época para lidar com doenças mentais: lobotomia e eletrochoque. Nise, a única mulher da sala — e de fato, uma das primeiras mulheres formadas em Medicina do Brasil — pede a palavra e questiona as técnicas barbáricas. E esse foi apenas o primeiro de muitos conflitos dela com os médicos ao longo do filme. Embora não falada, a barreira que se apresenta ali àquela mulher buscando respeito no meio de um grupo homogêneo de homens é evidente. Se além de mulher ela tivesse também uma fala nordestina, as cenas dela confrontando os médicos certamente iriam adquirir uma dimensão ainda mais forte.

Mas aparentemente o diretor carioca Roberto Berliner não julgou importante retratar isso no filme, ou achou que bastaria mostrar Nise no epílogo para que isso se tornasse uma não-questão. Não é. Esse é apenas mais um epiósdio que mostra como a produção cultural no Brasil é homogeneizante e a nossa diversidade vai sendo apagada.

Por mais industrializada que seja a produção americana ela me parece ter um respeito um pouco maior pela diversidade que a nossa. Alguém consegue imaginar se, num hipotético filme biográfico sobre uma médica da Louisiana quebrando tabus em Nova York, o sotaque sulista dela seria “neutralizado” (com muitas aspas, pois adotar um sotaque dominante em nada é torná-lo neutro)?

O Brasil esconde os seus sotaques na arte, a não ser quando é para fazer deles caricatura. Já vi no cinema um Getúlio Vargas que falava como carioca do início ao fim do filme exceto em uma cena onde “queria comer um churrasco”. E ainda assim isso não é comparável, pois os gaúchos não sofrem o preconceito sistemático que os nordestinos sofrem no resto do Brasil.

Lembro de uma pichação que vi nos muros da cidade: MACHADO DE ASSIS ERA NEGRO. Lembro do meu choque quando aprendi esse fato somente na vida adulta. Espero que as escolas hoje em dia façam um trabalho melhor de que no meu tempo. Espero também que no futuro o cinema faça um trabalho melhor do que no tempo de hoje.

Em suma, o que eu gostaria de dizer é: assistam ‪”Nise - O Coração da Loucura”, é realmente muito bom, mas não esqueçam: Nise da Silveira era alagoana, formada na Bahia, e não falava com o sotaque carioca da Glória Pires.


Crise? Que crise?

Pra vocês que daqui a pouco vão estar soltando foguetes sobre como a economia “vai melhor no governo Temer”: olhem os gráficos, a economia tá em franca recuperação desde janeiro puxada pelo ritmo de alta do petróleo (”olhem pros gráficos”, tecla que eu já venho batendo aqui nos meus posts há uns dois anos). A crise veio por causa lá de fora, ele vai acabar por causa lá de fora.

As coisas seguirão no curso, o que vai mudar é o discurso dos jornais e TV.

A “crise” que todo mundo fala eram na verdade duas:

E a tal da corrupção sobre a qual tanto gritavam nas ruas? Pois é…


Triângulos

Coisas que o Hisham pensa enquanto toma banho:

“Todo mundo lembra do que é um triângulo retângulo… e acho que triângulo equilátero também… afinal, equi-látero, lados iguais.

Mas acho que ninguém lembra do que diabos é um “triângulo escaleno”… que nome horrível. Como é o nome daquele com dois lados iguais, é escaleno mesmo? Não lembro! Pra tu ver. A diferença que um nome bom como “equilátero” e um nome ruim como “escaleno” fazem. Um deles a gente sempre lembra qual é.

Taí um bom problema: e se eu fosse dar um nome melhor para aquele triângulo com dois lados iguais, que nome seria? Duolátero? Bom, aí parece que o triângulo só tem dois lados, o que é um absurdo. Bom, o triângulo com dois lados iguais é aquele que se tu traçar uma reta saindo bem meio da “ponta” ela corta bem no centro do lado oposto, né… ficam dois triângulos retângulos iguaizinhos um de cada lado. Taí: “triângulo simétrico”. Aposto que se esse fosse o nome todo mundo ia lembrar qual triângulo é esse! Problema resolvido!”


Uma leitura econômica sobre a crise política

Domingo passado eu vi algo que mais uma vez me deu subsídios para a minha teoria sobre a atual crise política. Eu assisti ao Fantástico.

O Fantástico é um programa que sempre repercute o grande fato da semana, que basicamente define a agenda do que estará “na boca do povo” na segunda-feira pela manhã. Bom, o grande fato da semana passada foi a condução coercitiva do Lula, então seria de se esperar que a maior reportagem do programa seria sobre isso.

Mas não foi. Provavelmente por terem se dado conta de que quanto mais espaço na mídia é dado ao Lula, pior para a oposição a ele. Muito já se discutiu sobre como ele usa da sua oratória e apelo popular para se colocar como vítima da situação, nem vou chover no molhado aqui. O curioso é qual foi a grande reportagem do Fantástico.

A maior fatia de tempo do Fantástico foi dedicada a mostrar mega-obras da Copa inacabadas. Grandes elefantes brancos, como terminais de ônibus sub-utilizados, linhas suspensas de VLT que ligam nada a lugar nenhum, cada uma delas retratadas através da história de uma pessoa da classe operária que seria beneficiada se a obra tivesse sido concluída. Em cada história, o custo milionário (ou bilionário!) da obra, a menção a verbas federais e estaduais, a justificativa do governo estadual responsável pela obra dizendo invariavelmente que “rompeu o contrato e vai fazer um novo e terminar a obra” e o nome da empreiteira envolvida. Odebrecht. OAS. Andrade Gutierrez. Na quarta, Mendes Júnior, menos presente nos noticiários da crise, aí então fizeram o complemento “também indiciada na Lava-Jato”.

Aí estão, estabelecidas, as grandes vilãs da corrupção no Brasil. Ao final de tudo, quando a poeira da disputa política baixar (e vários inimigos da crise de hoje terão certamente apertado as mãos), haverão nomes que enfim serão unanimidade como saco de pancadas: as empreiteiras. A esquerda, com justiça, as demonizarão com o argumento do financiamento privado de campanha e da corrupção inerente a esse modelo. A direita, com justiça, as demonizarão por terem feito cartéis, subvertido a livre concorrência e compactuado com esse governo que aí está. Enfim, coxinhas e petralhas concordarão com alguma coisa, e a liderança política que aparecer com esse discurso ganhará o apreço popular “acima da polarização” e a crise política, enfim, vai passar.

O custo real disso tudo será na economia nacional. Há mais de seis meses, vi um desses debates na GloboNews, à época que os cabeças das empreiteiras começaram a ser presos. Lembro do mediador perguntando para os analistas convidados:

“Mas tem tanta obra enorme no Brasil, Belo Monte, etc. — se todas as grandes empreiteiras estão envolvidas e elas quebrarem, quem vai tocar as obras?”

O analista não piscou para responder: “Ah, os americanos, os japoneses.”

Ao olhar a lista de doações das campanhas presidenciais, independentemente de partido, a gente vê basicamente a lista das maiores empresas de capital nacional. Ao olharmos a lista do Valor1000 das maiores empresas do Brasil, vemos que as empresas estrangeiras dominam todo tipo de área (eletroeletrônicos, veículos, telecom, etc.), e as empresas brasileiras no alto da lista se resumem a energia, construção civil e agronegócio. Não por acaso, são as áreas no centro da crise.

O Brasil é um país emergente, em desenvolvimento, e por esse processo de desenvolvimento passa a construção de uma infraestrutura enorme que o país precisa para crescer. Infraestrutura essa que já está consolidada em outros lugares já desenvolvidos. Decimar a indústria de infraestrutura nacional vai ser o saldo da crise, e a madura indústria de infraestrutura estrangeira está pronta para ocupar esse vazio.

Os grandes movimentos no tabuleiro do jogo em andamento não são o destino do Lula, ou do Cunha, ou da passeata na rua ou do julgamento no STF. Esse é o circo. São as renegociações do pré-sal, são as quebras dos contratos de infraestrutura, é o futuro das indústrias que ainda são nacionais.

Não estou aqui defendendo Odebrecht, Andrade Gutierrez ou quem quer que seja. Mas quando as empreiteiras que constroem o país forem todas estrangeiras, elas vão organizar os seus cartéis lá fora, longe do alcance dos grampos, batidas e operações da PF.