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Eduardo Jorge e a perpetuação dos estereótipos

Eduardo Jorge era o candidato mais atento no debate. Ele sabia a sequência dos candidatos a serem perguntados antes de o Bonner dizer. Ele corrigiu o Bonner em mais de um momento sobre a hora de quem deveria falar.

Enquanto isso, os outros perguntavam “pra quem posso perguntar agora?”. A Marina seguiu respondendo depois da tréplica e continuou falando mesmo quando mandaram parar. A Dilma volta e meia atropelava as palavras e não formava frases completas. O Aécio respondeu a uma pergunta “vamos conversar sobre [um assunto sério]” com “eu sempre gosto de conversar com você”. O William Bonner passou o debate inteiro risonho e distraído.

Se o Eduardo Jorge tivesse feito qualquer uma dessas coisas, haveriam 300 memes na internet dizendo “que é porque ele estava chapado”. Mesmo sem ele ter feito nenhuma dessas coisas, tiveram 300 memes durante o debate dizendo que ele estava “chapado”, chamando ele de “maconheiro”, com essas palavras.

O pior é que vejo essas piadas vindo de todos os lados, desde o colunista da Veja até militantes da descriminalização da maconha. Será que esses últimos não veem que estão fazendo um desserviço a si mesmos? Por mais que nesse caso tenha um ar de cumplicidade marota, na prática apenas perpetua a estereotipação.

Da mesma forma, na eleição passada, quando o Plínio de Arruda Sampaio dava a real nos debates, jorravam piadas de que ele era um “velho gagá”, tipo o vovô que fala as verdades incovenientes na mesa de jantar porque já chegou na idade de “ligar o foda-se”. É o discurso do preconceito.

É óbvio que a pessoa ser sorridente e descontraída não significa que ela está usando maconha, mas quando é com o Eduardo Jorge, lá vem a piada pronta. E claramente são dois pesos e duas medidas: Pros lapsos do Bonner no debate, as piadas eram que ele estava “distraído com o Twitter”.

Eduardo Jorge foi o único candidato que falou no debate algo de completo sobre a questão de política de drogas, indo desde a questão de política de segurança (lado esse que a Luciana Genro também citou muito bem na questão da “guerra aos pobres”) até a problemática de saúde no tratamento de usuários dependentes, que não pode ser deixada de lado. É triste ver que a única repercussão da internet, até das pessoas que eu acho que supostamente deveriam ser as mais interessadas nisso, é compartilhar memes dizendo “haha, maconheiro!”.


PS: Eu sempre odiei que toda vez que eu faço ou digo algo criativo/maluco/surrealista, alguém sempre faz a piada pronta “pô, me dá isso aí que tu tá tomando!”, como se alguém só pudesse ser criativo usando drogas. Eu sei muito bem ser fora-da-casinha por conta própria, muito obrigado.


Eu sou de esquerda e Gregório Duvivier não me representa

Não é novidade pra ninguém que a Folha de São Paulo é um dos órgãos de imprensa mais criticados pela esquerda. Ao contrário de uma Veja, porém, a Folha ainda faz um esforço maior para passar uma aura de imparcialidade (ao menos a fraca imparcialidade do tipo “vamos dar espaço pros dois lados”).

À primeira vista, a coluna do Gregório Duvivier, em termos de conteúdo e posicionamento, parece ser uma concessão desse tipo. Afinal, as posições que ele defende nela fazem um contraste claro com as posições das manchetes e reportagens em geral que a Folha de São Paulo publica. A boa parte do público de esquerda, a coluna do Duvivier seria um “cantinho de sanidade” no meio de um jornal que eles rejeitam.

Mas esses dias eu me dei conta que não é por isso.

Finalmente entendi por que o Gregório Duvivier tem espaço para escrever na Folha de São Paulo.

A postura da direita[1] no país é fazer uma política do tipo “nós contra eles”. Aliás, essa não é a postura da direita apenas aqui. Basta lembrar do George W. Bush: “se você não está conosco, você está com os terroristas”. O Duvivier tem espaço na Folha porque a política de esquerda que ele pratica é da mesma forma. E é isso que a direita quer.

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[1] Uma nota de rodapé: Escolhi o termo “direita” por simplicidade. É difícil usar esses termos hoje, em função da salada de alianças políticas. Então, perdoem a simplificação de usar “direita” de forma ampla pra me referir à linha política, grosso modo, que pauta a revista Veja. Acho que todos vamos entender a que me refiro.
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Uma coisa a se levar em conta é que textos como o dele circulam primariamente pela web. A Folha dá espaço pra ele para que o público dele — primariamente jovem, primariamente de esquerda — dele leia, “curta” e compartilhe no Facebook. Esses nem olham a “capa” do site da Folha, não são leitores do jornal, propriamente falando. Nem online, muito menos impresso. Mas ele chega ao público que o jornal quer que ele alcance.

Sobre polarizações

Nessa semana onde vários campos da esquerda (seja de situação, seja de oposição à esquerda) estão em polvorosa com o “ressurgimento” da Marina Silva, grandes esforços estão sendo dispendidos pra derrubar o discurso dela “contra a polarização”. De fato, o discurso da Terceira Via volta e meia retorna, sempre muito ralo, e sempre perigoso. Já vi o Rio Grande do Sul entrar pelo cano mais de uma vez por causa disso (Rigotto em 2002 capitalizando sobre a “polarização” Britto/Tarso; Yeda em 2006 capitalizando sobre a disputa Rigotto/Olívio). Ou seja, esse papo da Marina funciona. Mas como a ilustração dessas duas eleições consecutivas do RS mostra, a “terceira via” de hoje é um dos “pólos” de amanhã.

O motivo pelo qual esse discurso “contra a polarização” é tão atraente é justamente porque as pessoas sentem que o processo de polarização de fato existe. Num nível superficial, é inegável, dado que as últimas cinco eleições presidenciais foram decididas entre PSDB e PT. A Marina capitaliza em cima desse fato que é fácil de verificar (e afinal, chegamos numa geração de jovens que nunca sequer viram uma eleição diferente disso).

Porém, assim como nas vitórias surpreendentes dos candidatos que vieram do terceiro lugar nas pesquisas no RS, a vitória da “terceira via” não quebra de fato o ciclo de polarização no país (afinal, o lado vencedor escolhe o pólo perdedor para compor governo e continua tudo na mesma, mesmo que ele não suba no palanque no segundo turno, para manter as aparências). O que eu nos vejo vivendo no Brasil é um processo de polarização, sim, mas uma polarização de ideias. Ou, na verdade, de posições, pois as ideias não têm tido muito espaço. E os textos do Duvivier são, imagino que inadvertidamente, uma pequena engrenagem nessa máquina.

Talvez por um processo de apropriação cultural, ou de paralelos históricos, eu vejo o Brasil em inúmeros aspectos repetindo com algum atraso algumas construções sociais dos Estados Unidos. E assim como eu prevejo que o Brasil ainda vai chegar no ponto onde o tema imigração entrará em pauta, um temor que eu tenho há tempos é o país caminhar para a simplificação total do posicionamento político tal como é o debate “Democratas versus Republicanos” nos EUA.

Nos Estados Unidos, a política é um jogo sem saída, onde as pessoas são enquadradas rapidamente em um dos dois quadrados, a partir de uns poucos temas polarizantes. Se você é “pro-choice”, provevelmente será também “pro-gun control” e será Democrata. Se você é “pro-life”, acaba por simpatizar com os “anti-gun control”, é será Republicano. Citei dois temas mas poderia ter citado outros (política de imigração, impostos, etc.). A questão é que marcar o X em uma caixinha de um tema traz junto todo um pacote de opiniões sobre os demais.

A quem interessa isso? Aos grupos que estão dividindo no poder, é claro, seja via alternância, seja via “loteamento”, vide a divisão entre Red States e Blue States nos EUA, onde votar é literalmente inútil em alguns estados. No Brasil alguns exemplos dessa tendência são a hegemonia do PSDB no governo de São Paulo; a forma como o PSB inviabilizou a candidatura de Ciro Gomes em 2010 em prol da aliança do PT com Eduardo Campos; etc.

É muito mais fácil manter o controle quando há um oligopólio, com poucos atores concorrendo entre si, mas cooperando para impedir a entrada de outros atores. Evita-se configurar monopólio/ditadura, mas mantém-se o mundo resumido a, e descrito como, uma disputa do tipo “Coca-Cola versus Pepsi”.

Quando o Duvivier escreve um texto a favor do aborto, e conclui com “Ateus, maconheiros, vagabundas, pederastas, sapatões e travestis do mundo: uni-vos. Porque o lado de lá tá bem juntinho.” é exatamente isso que ele está fazendo. Ele está estimulando o empacotamento de posições e a polarização consequente.

Infelizmente, isso é a atitude mais contra-producente que se pode ter em relação a qualquer causa que se queira defender. Coloco dois grandes motivos.

1) Porque gera um isolamento que é estrategicamente inefetivo.

Eu vejo o pessoal mais jovem abraçando algumas causas dos quais eles são parte diretamente interessada, e gradualmente se juntando a outras que consideram correlatas, ou onde haja uma simpatia mútua. Vendo a movimentação do ativismo aqui no Rio de Janeiro, pelo menos, a impressão que dá é que a maioria da pessoal que está na Marcha das Vadias defendendo o feminismo é o mesmo pessoal que está na Marcha da Maconha, e é o mesmo pessoal que está na Massa Crítica pelo cicloativismo. Isso em si não é um problema e em certa medida é até uma consequência meio óbvia.

O problema é que, mesmo que 80% do pessoal dessas manifestações seja o mesmo, a postura dessas manifestações não deveria ser de tentar atrair os 20% restantes para as causas correlatas (que é o que acontece), mas sim alcançar a opinião pública em geral. Trazer quem está fora para o debate, em vez de “cultivar a cena”, “chocar os conservadores” e celebrar o próprio ativismo, pois isso é “pregar para os já convertidos”.

Construir uma minoria coesa que forma um antagonismo consistente aos segmentos mais conservadores da sociedade é algo extremamente útil para esses segmentos conservadores. Fica muito fácil para um pastor evangélico radical, por exemplo, vender um pacote de ideias pronto quando existe um grupo razoavelmente homogêneo defendendo o pacote de ideias inverso. É só partir de uma das ideias no qual o público já tem a posição fechada e puxar as outras a partir dali. Enquanto a Luciana Genro fica ocupada no debate criticando o Pastor Everaldo, ninguém questiona a situação com uma oposição à esquerda real. Infelizmente, porém, parece ser isso que o público dela quer que ela faça, ao invés de ostracizá-lo como um candidato tão irrelevante quanto um Levy Fidélix.

A realidade de qualquer uma dessas questões polêmicas dos dias de hoje é muito mais complexa do que esses pacotes que o Silas Malafaia e o Gregório Duvivier querem pintar (e sei que nenhum dos dois gostaria de ser associado com o outro na mesma frase). Entre os meus amigos, tenho pessoas cujas opiniões e posicionamento político eu respeito profundamente, ainda que diferentes das minhas, e vejo o quanto é possível se ter diversidade de posições. É plenamente possível, com posições bem sustentadas, ser ateu e ser contra o aborto; ser cristão e ser a favor da liberação da maconha; ser gay e não se identificar com a esquerda; só pra ficar em algumas das inúmeras combinações possíveis oriundas de pessoas que eu conheço. Nada disso é contraditório.

Juntar todas as minorias que o Duvivier enumera ainda assim vai produzir uma minoria, então ainda assim é insuficiente para ser agente real de mudança. Alcançar a opinião pública é ir além. Então não tem porque arriscar “perder pessoas” pra uma causa hostilizando elas de largada por causa de posições dela em outra. É trazendo elas para um meio de diálogo que se pode construir nelas um novo pensamento (e aí quem sabe até fazê-las reavaliar). É uma questão de estratégia e pragmatismo, quase diplomacia.

Discuti esses dias um episódio que me contaram de uma bicicletada da Massa Crítica aqui no Rio. Um carro derrubou um ciclista. Discutiu-se então se deveriam fechar ambas as pistas da rua em protesto ou uma pista só. Fecharam ambas as pistas. Argumentei que fechar uma só teria feito muito mais sentido, porque trancar o trânsito e gerar engarrafamento só produz animosidade, já que os motoristas nem saberiam o que aconteceu. Ao fechar uma só pista os demais carros passariam pelo acidente teriam alguma chance de se conscientizar que o ciclista foi a vítima.

Depois disso eu coloquei que, embora um carro tenha feito uma coisa deplorável, os outros 70 pelos quais eles passaram não fizeram e são justamente as pessoas que o movimento deveria tentar alcançar; eles são a opinião pública. Obviamente esse último argumento foi ouvido da mesma forma que a fraca resposta #NotAllMen é ouvida quando se fala em violência contra a mulher: “Eu não deveria estar feliz porque os outros carros não atropelaram! Ninguém deveria atropelar!” O meu ponto não era esse. O ponto é não se vence fazendo uma guerra contra um lado mais forte nos termos deles. Assim como uma bicicleta não pode fechar um carro, e os foguetes do Hamas não têm nenhuma efetividade contra o sistema anti-mísseis de Israel. Evidentemente, os mesmos padrões se repetem em todas essas discussões sobre ativismo. Muitos segmentos da esquerda estão querendo fazer uma guerra contra a direita nos termos deles. Estão fadados a perder.

2) Porque causa um silenciamento dos debates.

Qualquer um desses temas que a esquerda brasileira tenta colocar na ordem do dia é extremamente complexo e não deveria ser resumido a um “sou contra” ou “sou a favor”. Seja o aborto, seja a política pública em relação às drogas, sejam os direitos civis, seja o cicloativismo, nenhuma dessas questões é binária.

Para ficar em um exemplo prático muito pequeno, e arriscando abrir o abelheiro, peguemos a questão do aborto. Se permitido, até que mês de gestação? Muitos defensores do aborto terão problemas em aceitar a terminação de uma gravidez bastante avançada, e isso põe em xeque alguns argumentos da questão, embora não ponha outros. Claramente, a coisa é mais complicada que um “sim” ou “não”. E assim são todas as coisas importantes. Já vi diferentes pessoas defendendo uma mesma causa com argumentos que são contraditórios entre si. Gostaria de vê-las debatendo uma com a outra. Mas infelizmente nunca vejo isso em grupos onde todo mundo é “sim” ou todo mundo é “não”.

Além disso, política vai muito além de causas pontuais, por mais importantes que sejam. É a discussão dos rumos do país, da sociedade como um todo. Quando eu vejo uma pessoa escolher candidato a presidente tendo como critério principal “vamos ver quais as suas posições sobre aborto, maconha e casamento gay”, acho isso está longe de “ser politizado”, pra começo de conversa porque essas questões nem estão na mão da presidência. Achei deplorável quando vi o Serra trazer a questão do aborto para o centro do debate no segundo turno de 2010, claramente tentando fazer um link com o voto do eleitorado mais religioso. Nos EUA a tal “direita religiosa” já é um bloco de relevância na política nacional, dentro do universo Republicano. No Brasil, é um fenômeno mais recente, que se alimenta de um determinado tipo de antagonismo que precisa de dois lados para funcionar.

Em conclusão…

Espero que tenha ficado claro que eu “tirei o Duvivier pra Cristo” nesse texto por uma razão alegórica, e que eu não acho que ele seja o centro do problema ou sequer a expressão mais clara dele. Não sou contra tudo o que ele escreve e nem sou contra ativismo. O centro do meu argumento é que a “esquerda festiva”, pra usar um termo da direita, até funciona como um ponto de entrada para incitar o interesse na política, mas que nessa posição de postura alternativa (que por definição nunca vai se tornar uma posição mainstream), caso ela se cristalize a ponto de se fechar em si mesma, arrisca ser ironicamente mais útil às posições que ela pretende combater.

Se a direita tem por estratégia empacotar uma série de opiniões e puxar as pessoas para dentro do pacote a partir de uma ou outra convicção prévia que as pessoas tenham, a postura da esquerda deveria ser a contrária: abrir os debates, discutir as minúcias, aceitar a diversidade de opiniões mesmo quando algumas são contrárias e ouvi-las, e não cair no discurso “nós ou eles” estilo Bush.

É mais difícil. É bem mais difícil. Começar por defender sua causa para os outros “20%” que já estão no meio do ativismo é muito mais fácil, mas gera uma bolha perigosa. A discussão de cada causa, e o discurso da esquerda como um todo, das várias esquerdas, precisa falar com toda a sociedade.

É preciso um ativismo que saia da bolha, pare de jogar a “guerra de batalha” que a direita quer, e se “infiltre” na sociedade, um pouco como a “guerra de guerrilha” de que falou Deleuze na abertura do seu apropriadamente intitulado Conversações.


O ruído de fundo constante na mente

Uma observação interessante. Nessa Copa do Mundo, como eu estou assistindo a tantos jogos seguidos na Globo, um efeito colateral é que fazia muito tempo que eu não assistia tantos comerciais, e tantas vezes os mesmos comerciais. Cada comercial individualmente nem me irrita, e vários são até divertidos, mas perceber essa repetição constante, com os jingles e slogans ecoando na cabeça, é bem desconfortável.

Fiquei pensando agora em quem assiste, por exemplo, novela ou o mesmo telejornal todo dia, seis vezes por semana… assistindo aos mesmos comerciais. Só agora que eu me desacostumei a ver comerciais, eu pego a dimensão do ruído de fundo constante na mente.

Quando eu vejo alguém usando a internet num computador sem ad-blocker instalado, eu tenho o mesmo choque. As pessoas são aparentemente “anestesiadas” a ver sites carregados de propagandas. Quando eu aponto pra elas e recomendo ad-blocker, elas dizem que “nem reparam” ou que “não incomoda”. Mas eu pessoalmente duvido que isso não tenha efeito (ou então uma empresa como o Google não seria multibilionária apenas na base de propagandas, como é).

Fico feliz por mim, por me dar conta que eu consegui achar uma maneira de viver livre de algumas dessas fontes de ruído mental, mas triste sempre que relembro que esse ruído é tão disseminado.


Sobre meritocracia e igualdade, na sociedade e no software livre

Meu amigo Evandro postou o link para um belo texto, a que ele precedeu com o seguinte epigrama, cirúrgico:

Meritocracia individual vs meritocracia social.

Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira

Recomendo bastante a leitura.

Acho bem interessante levantar essa questão do significado de “meritocracia”. É uma palavra cuja conotação foi mudando em tempos recentes.

Há alguns anos o termo definitivamente não estava na ordem do dia. Eu nunca tinha ouvido ninguém falar.

O primeiro contato que tive com o termo era dentro de comunidades de software livre, pra explicar como as coisas funcionam lá. Ali, eu achei uma ideia ótima. Sempre fui defensor.

Recentemente, teve essa inversão. A tal “classe média reacionária” de que o texto fala começou a defender o status quo de qualquer desigualdade. E fazer isso sempre em nome da tal meritocracia. Aí as coisas começaram a ficar estranhas pra mim. Não demorou pro pessoal de esquerda abraçar o discurso “abaixo a meritocracia!”. Eu, que não nego que sou de esquerda, fiquei olhando com uma cara de “ei, peraí, mas mas…”

Aí o texto (e o preciso destaque de cinco palavras do Evandro) desata esse nó claramente. Tem uma diferença fundamental entre as meritocracias do parágrafo anterior e a do anterior a esse. A meritocracia no mundo do software livre é uma meritocracia entre membros que têm condições iguais. Todo mundo ali é programador, tem formação, acesso a computador, internet, etc. Dadas todas essas condições, aí realmente fica aquela coisa do “quem contribui mais, apita mais”. Na outra, é uma “meritocracia” onde muito poucos têm sequer chance de mostrar algum mérito. E se a maioria está de fora, é mesmo o mérito que define quem está no topo?

Só que até na meritocracia bonita do software livre a coisa tem uns furos não totalmente aparentes. E nem estou considerando que estamos olhando só pro universo da informática, o que já é uma restrição. Quem não tem o perfil típico tem dificuldades pra entrar nas “panelas”, não importam seus méritos. Vide os casos de sexismo em conferências e comunidades de desenvolvedores, por exemplo. Cadê a meritocracia? Outro ponto foi levantado por um amigo no Twitter. “Open-source development is not as much as a meritocracy as it is a have-enough-time-ocracy”… Acaba que os mais presentes/insistentes muitas vezes “vencem pelo cansaço” as discussões.

Igualitarismo é às vezes visto como o contrário do culto ao mérito. Afinal tem o problema do “freeloader” que se encosta no “sistema”, etc. Mas o que eu acho é que estruturas como a do software livre geram condições mais igualitárias por design. Considere o conceito do copyleft, por exemplo: “usou o código aberto, agora abre o seu código também”. Isso acaba abrindo mais espaço para o verdadeiro mérito se destacar, uma vez que o “campo de jogo” está mais nivelado. Software livre sozinho não resolve, vide os problemas que apontei. Além disso há modelos mais e menos simétricos de software livre. Mas acho que aponta um tipo de modelo possível. É diferente do igualitarismo “top-down” de Estado. Infelizmente, vejo essa ideia expressa muito pouco em outros lugares.

É preciso, como disse o texto, criar uma outra cultura do mérito. Além disso, precisamos de novos conceitos de igualdade. Afinal, ambos estão em falta.


Neutralidade da rede: a discussão é global, a Europa vota amanhã

Esses dias, alguém me perguntou se a defesa da neutralidade da rede também tem sido discutida em outros países.

SIM! A votação similar no Parlamento Europeu está acontecendo amanhã. “Coincidência”, né?

Está rolando uma campanha forte para que as pessoas contactem seus representantes. (Alô amigos aí que têm dupla cidadania europeia!)

Esse debate do Marco Civil da Internet está acontecendo dentro de uma discussão em escala global. Não é uma mera picuinha em Brasília.

E o que nos interessam as leis da Europa? Em primeiro lugar, elas definem precedentes. Em tempos de Organização Mundial de Comércio, há muito não dependemos somente das nossas leis locais. O que se torna prática de negócio comum no mundo acaba chegando aqui via pressão na balança comercial. Em segundo lugar, o motivo dessas coisas estarem acontecendo agora em diferentes lugares não é coincidência, é pressão de lobbies das multinacionais de comunicação (ou seja, o lobby de lá é o mesmo lobby daqui). Em terceiro lugar, pela própria natureza da internet o que acontece na internet da Europa e na internet dos EUA nos afeta aqui.

A nossa política interna é sempre um pedacinho da geopolítica, muito mais do que aparenta. Pintar a nossa realidade puramente em termos internos (ou pior, partidários) é uma ilusão. Acompanhar política internacional não é uma “curiosidade”.

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