hisham hm

Adeus, Galeano

A palestra dele na PUC-Rio está gravada na minha mente, que momento lindo foi aquele. Quando pessoas como ele se vão, eu sinto um peso de responsabilidade maior nas costas. Não é prepotência, pois não estou me comparando com ele. Mas dá uma sensação de que “agora é com a gente”, todos nós que ainda estamos por aqui, o dever de redobrar o envolvimento, não se omitir, trabalhar para abrir as cabeças e tornar esse mundo um lugar melhor. Nenhum de nós é um Galeano, mas juntos todos somos um pouquinho ele.


O ruído de fundo constante na mente

Uma observação interessante. Nessa Copa do Mundo, como eu estou assistindo a tantos jogos seguidos na Globo, um efeito colateral é que fazia muito tempo que eu não assistia tantos comerciais, e tantas vezes os mesmos comerciais. Cada comercial individualmente nem me irrita, e vários são até divertidos, mas perceber essa repetição constante, com os jingles e slogans ecoando na cabeça, é bem desconfortável.

Fiquei pensando agora em quem assiste, por exemplo, novela ou o mesmo telejornal todo dia, seis vezes por semana… assistindo aos mesmos comerciais. Só agora que eu me desacostumei a ver comerciais, eu pego a dimensão do ruído de fundo constante na mente.

Quando eu vejo alguém usando a internet num computador sem ad-blocker instalado, eu tenho o mesmo choque. As pessoas são aparentemente “anestesiadas” a ver sites carregados de propagandas. Quando eu aponto pra elas e recomendo ad-blocker, elas dizem que “nem reparam” ou que “não incomoda”. Mas eu pessoalmente duvido que isso não tenha efeito (ou então uma empresa como o Google não seria multibilionária apenas na base de propagandas, como é).

Fico feliz por mim, por me dar conta que eu consegui achar uma maneira de viver livre de algumas dessas fontes de ruído mental, mas triste sempre que relembro que esse ruído é tão disseminado.


Sobre meritocracia e igualdade, na sociedade e no software livre

Meu amigo Evandro postou o link para um belo texto, a que ele precedeu com o seguinte epigrama, cirúrgico:

Meritocracia individual vs meritocracia social.

Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira

Recomendo bastante a leitura.

Acho bem interessante levantar essa questão do significado de “meritocracia”. É uma palavra cuja conotação foi mudando em tempos recentes.

Há alguns anos o termo definitivamente não estava na ordem do dia. Eu nunca tinha ouvido ninguém falar.

O primeiro contato que tive com o termo era dentro de comunidades de software livre, pra explicar como as coisas funcionam lá. Ali, eu achei uma ideia ótima. Sempre fui defensor.

Recentemente, teve essa inversão. A tal “classe média reacionária” de que o texto fala começou a defender o status quo de qualquer desigualdade. E fazer isso sempre em nome da tal meritocracia. Aí as coisas começaram a ficar estranhas pra mim. Não demorou pro pessoal de esquerda abraçar o discurso “abaixo a meritocracia!”. Eu, que não nego que sou de esquerda, fiquei olhando com uma cara de “ei, peraí, mas mas…”

Aí o texto (e o preciso destaque de cinco palavras do Evandro) desata esse nó claramente. Tem uma diferença fundamental entre as meritocracias do parágrafo anterior e a do anterior a esse. A meritocracia no mundo do software livre é uma meritocracia entre membros que têm condições iguais. Todo mundo ali é programador, tem formação, acesso a computador, internet, etc. Dadas todas essas condições, aí realmente fica aquela coisa do “quem contribui mais, apita mais”. Na outra, é uma “meritocracia” onde muito poucos têm sequer chance de mostrar algum mérito. E se a maioria está de fora, é mesmo o mérito que define quem está no topo?

Só que até na meritocracia bonita do software livre a coisa tem uns furos não totalmente aparentes. E nem estou considerando que estamos olhando só pro universo da informática, o que já é uma restrição. Quem não tem o perfil típico tem dificuldades pra entrar nas “panelas”, não importam seus méritos. Vide os casos de sexismo em conferências e comunidades de desenvolvedores, por exemplo. Cadê a meritocracia? Outro ponto foi levantado por um amigo no Twitter. “Open-source development is not as much as a meritocracy as it is a have-enough-time-ocracy”… Acaba que os mais presentes/insistentes muitas vezes “vencem pelo cansaço” as discussões.

Igualitarismo é às vezes visto como o contrário do culto ao mérito. Afinal tem o problema do “freeloader” que se encosta no “sistema”, etc. Mas o que eu acho é que estruturas como a do software livre geram condições mais igualitárias por design. Considere o conceito do copyleft, por exemplo: “usou o código aberto, agora abre o seu código também”. Isso acaba abrindo mais espaço para o verdadeiro mérito se destacar, uma vez que o “campo de jogo” está mais nivelado. Software livre sozinho não resolve, vide os problemas que apontei. Além disso há modelos mais e menos simétricos de software livre. Mas acho que aponta um tipo de modelo possível. É diferente do igualitarismo “top-down” de Estado. Infelizmente, vejo essa ideia expressa muito pouco em outros lugares.

É preciso, como disse o texto, criar uma outra cultura do mérito. Além disso, precisamos de novos conceitos de igualdade. Afinal, ambos estão em falta.


Neutralidade da rede: a discussão é global, a Europa vota amanhã

Esses dias, alguém me perguntou se a defesa da neutralidade da rede também tem sido discutida em outros países.

SIM! A votação similar no Parlamento Europeu está acontecendo amanhã. “Coincidência”, né?

Está rolando uma campanha forte para que as pessoas contactem seus representantes. (Alô amigos aí que têm dupla cidadania europeia!)

Esse debate do Marco Civil da Internet está acontecendo dentro de uma discussão em escala global. Não é uma mera picuinha em Brasília.

E o que nos interessam as leis da Europa? Em primeiro lugar, elas definem precedentes. Em tempos de Organização Mundial de Comércio, há muito não dependemos somente das nossas leis locais. O que se torna prática de negócio comum no mundo acaba chegando aqui via pressão na balança comercial. Em segundo lugar, o motivo dessas coisas estarem acontecendo agora em diferentes lugares não é coincidência, é pressão de lobbies das multinacionais de comunicação (ou seja, o lobby de lá é o mesmo lobby daqui). Em terceiro lugar, pela própria natureza da internet o que acontece na internet da Europa e na internet dos EUA nos afeta aqui.

A nossa política interna é sempre um pedacinho da geopolítica, muito mais do que aparenta. Pintar a nossa realidade puramente em termos internos (ou pior, partidários) é uma ilusão. Acompanhar política internacional não é uma “curiosidade”.

http://www.savetheinternet.eu/


Marco Civil da Internet: o assunto é sério!

Das várias coisas discutidas dentro do Marco Civil da Internet, a principal questão em jogo é a “neutralidade da rede”. Isto é, é a ideia de que a internet é um condutor neutro de dados. O que isso significa em termos práticos? Significa que os provedores de internet devem prover acesso integral, e não filtrar conteúdos e cobrar a mais por eles.

Nos EUA já existe uma briga grande entre provedores de TV a cabo (que proveem internet através dos seus “combos”) e sites como Netflix. O Netflix usa a internet para prover um serviço de TV de melhor qualidade do que a própria TV a cabo. As operadoras não gostam de “carregar os dados para o concorrente”. Ao invés de prover um serviço melhor, elas querem silenciar a concorrência.

Aqui no Brasil já se começam a ver ameaças à neutralidade da rede. Começa com o “Facebook e Twitter grátis no seu celular pré-pago”. O que de início parece um ‘brinde’ na verdade é uma forma de começar a incutir a ideia de que “uns sites custam mais do que outros”.

Serviços de VoIP como Skype também já são detectados por operadoras de celular e cobrados em separado ou bloqueados. Como no caso do Netflix, é porque eles oferecem um serviço melhor do que a própria operadora.

A proliferação desse tipo de negócio põe em risco a estrutura aberta da internet como a conhecemos. Como diz o Gilberto Gil no texto da petição do Avaaz, não podemos deixar a internet virar uma “uma espécie de TV a cabo, em que se poderia cobrar a mais para podermos assistir a vídeos, ouvir música ou acessar informações”.

Além do mais, se o conjunto de sites e serviços provido aos usuários for restrito tem consequências. Na prática, isso pode até acabar virando monopólio ou censura, pois novos sites não terão oportunidade de surgir.

Cliquem na petição, leiam a descrição e façam parte.